Mercado binário: por que não se aposta em eleição apertada?
Perdi muito em 2014 ao apostar em uma eleição apertada. Confira por que não se opera mercado binário e o que fazer com a carteira depois do 2º turno
Em 2014, eu era mais nova de mercado e achava que sabia ler eleição. Dilma e Aécio chegaram ao segundo turno em uma disputa apertadíssima, e cada pesquisa fazia a bolsa e os juros darem saltos enormes.
Em um dado momento, nosso chefe da mesa cobrou performance dos traders, que não estavam entregando. Com essa pressão, eu me convenci de qual seria o resultado e me posicionei. O resultado veio ao contrário, e nunca perdi tanto dinheiro na minha vida.
Demorei para entender que o meu erro não tinha sido apostar no candidato errado. O erro foi me sentir pressionada e apostar, quando, na verdade, com um cenário inconclusivo daquela forma, o ideal era não fazer nada.
Foi ali que aprendi a regra que repito até hoje: não se opera mercado binário, ou seja, aquele em que o resultado depende de dois cenários muito diferentes e excludentes, e você não tem como saber qual deles vai acontecer.
Por que a eleição de 2026 era um mercado binário
Porque as eleições de 2026 tinham exatamente esse formato. Dois cenários muito diferentes, uma disputa apertada e um mercado que oscilava a cada pesquisa.
Depois do primeiro turno, com Flávio na frente, o Ibovespa teve a maior alta diária em seis anos, os juros longos caíram quase um ponto percentual em um único dia, e muita gente se sentiu tentada a “não perder a oportunidade”.
O que aconteceu com Ibovespa, dólar e juros no dia seguinte ao 2º turno
Foi pior do que imaginei. O Ibovespa caiu 13,88% e fechou em 176.608 pontos, a maior queda desde março de 2020, com circuit breaker acionado pela primeira vez desde a pandemia. O dólar subiu 8,4%, para R$ 5,41, a maior alta diária em mais de duas décadas. Os juros futuros dispararam: o DI de janeiro de 2031 saiu de 12,64% para 15,19%, uma alta de mais de 2,5 pontos percentuais em um dia. Os índices de small caps, consumo e imobiliário caíram mais de 25%.
Para ver o desenho completo desse dia, leia Reação do mercado ao 2º turno: o que fazer com a carteira?.
Quem comprou prefixado longo depois do primeiro turno, acreditando que a taxa só iria cair, viu a marcação a mercado ir na direção oposta em poucas horas. E quem estava alavancado em bolsa sentiu na pele o que significa um cenário binário dar errado.
A performance dos fundos multimercado e de ações mostra o tamanho do choque, com perdas de 5% a 30%.
Erros de quem tentou acertar o resultado: o que os leitores contaram
Não escrevo este texto para dizer que acertei, até porque eu não tinha a menor ideia de quem ganharia as eleições. Escrevo porque, nos últimos dias, recebi muitas mensagens que mostram, melhor do que qualquer número, por que o trabalho de estratégia importa.
Uma leitora me escreveu que seguiu o conselho de vender bolsa antes da eleição, mas, depois do primeiro turno, “comprei um monte de prefixado e IPCA+ com medo de perder a oportunidade das taxas altas, acreditando na vitória do Bolsonaro. Se tivesse escutado você, não teria sido tão prejudicada.”
Outra resumiu em uma frase: “Você avisou, e eu não escutei. Bom pra aprender e não errar novamente.”
Um leitor contou que entrou e saiu várias vezes e, na sexta-feira, deixou a bolsa de vez.
Outro disse que deixou as decisões para depois da eleição e “já consegui fazer boas compras na bolsa agora”.
A essas pessoas, eu respondi a mesma coisa que respondo a mim mesma: é normal. A gente acaba deixando a tendência nos levar. Eu também já errei, e foi assim que aprendi.
E se o resultado da eleição tivesse sido outro?
Essa é a parte mais importante deste texto. Se o resultado tivesse sido outro, quem apostou teria ganhado dinheiro, e a lição continuaria exatamente a mesma. Teria sido uma aposta ruim que deu certo.
Mesmo estando confortável com a possibilidade de não ganhar dinheiro, muitos assinantes iriam me cobrar por não ter "ganhado" quando a vitória parecia óbvia. Esse é o problema principal: as pessoas medem as decisões de investimento só pelo resultado, e não pelo risco incorrido para obtê-lo.
O problema do mercado binário não é o resultado, é a relação entre risco e retorno. Depois do primeiro turno, boa parte da vitória de Flávio já estava nos preços. Se ele vencesse, teríamos um ganho adicional. Se perdesse, a queda seria enorme, como vimos.
Quando o lado ruim e o lado bom se equilibram e você não tem como saber qual dos dois vai acontecer, a decisão correta é não se posicionar.
Bons processos às vezes dão resultados ruins, e processos ruins às vezes dão sorte. No longo prazo, quem sobrevive é quem respeita o processo e a estratégia.
O que fazer com a carteira depois do 2º turno: liquidez e pós-fixado
Agora a eleição passou, e dá para pensar com mais calma. Só que calma não significa otimismo. Na minha leitura, teremos quatro anos difíceis pela frente.
O país precisa de um ajuste fiscal relevante para estabilizar a dívida, e o governo eleito nunca demonstrou valorizar esse ajuste. Sem ele, o prêmio de risco tende a continuar alto, os juros demoram mais para cair e o câmbio fica mais pressionado.
Para o investidor, isso pede uma carteira mais defensiva, com liquidez, com títulos pós-fixados como base e sem apostas concentradas em um único cenário. Pesquisas, decisões de política fiscal e trocas de equipe econômica vão continuar mexendo com o mercado. Muitas delas vão parecer, de novo, eventos binários.
A regra continua valendo. Eu aprendi da pior forma em 2014. Fico feliz de saber que, desta vez, muita gente aprendeu sem precisar passar pelo mesmo.
E uma última dica: siga evitando crédito privado! Em um cenário em que a volatilidade vai tomar conta, nada é mais importante que a liquidez.
Crédito privado e liquidez
Em um cenário em que a volatilidade vai tomar conta, nada é mais importante que a liquidez. Por isso sigo cautelosa com crédito privado e com prazos longos.
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