O ano começou agitado para a bolsa brasileira. Após romper a marca dos 134 mil pontos — nova máxima histórica — em dezembro e encerrar o ano em alta de +22%, o Ibovespa passou a cair e acumula uma queda de -2% em 2024

Mesmo que ainda existam algumas incertezas no país, principalmente relacionadas às possíveis novas arrecadações do atual governo e suas implicações para a inflação e os juros, o movimento parece ser apenas uma correção. Pelo menos até agora.

Com o mercado em baixa nesta reta inicial, a maioria das ações segue operando no negativo. Contudo, entre as poucas altas, já é possível ver alguns destaques relevantes nos primeiros pregões do ano. 

Menos de 1/4 no positivo

Até aqui, apenas 19 ações do Ibovespa operam no positivo, enquanto 68 trabalham no campo negativo.

Entre os destaques positivos, estão a petroleira 3R Petroleum (RRRP3), o Grupo Soma (SOMA3) e a Cemig (CMIG4), que está em vias de ser privatizada em 2024 (possível motivo para o otimismo recente com suas ações). 

Enquanto isso, os destaques negativos ficam por conta da incorporadora de baixa renda MRV (MRVE3), da aérea Gol (GOLL4) e da Braskem (BRKM5). 

10 ações que mais subiram nos primeiros pregões do ano

EmpresaVariação
3R Petroleum (RRRP3)8,52%
Grupo Soma (SOMA3)7,92%
Cemig (CMIG4)4,53%
Cielo (CIEL3)3,17%
Assaí (ASAI3)3,03%
Energisa (ENGI11)2,88%
Rumo (RAIL3)2,40%
Ultrapar (UGPA3)2,34%
Petrobras (PETR4)2,31% 
 Locaweb (LWSA3)1,83%

*Até o pregão do dia 09/01/24. || Fonte: Bloomberg

10 ações que mais caíram nos primeiros pregões do ano

EmpresaVariação
MRV (MRVE3) 11,13%
Gol (GOLL4)9,70%
Braskem (BRKM5)9,42%
Eztec (EZTC3)9,25%
BRF (BRFS3)7,89%
São Martinho (SMTO3)7,57%
Azul (AZUL4)7,43%
Atacadão (CRFB3)7,39%
Usiminas (USIM5)7,10%
Gerdau (GGBR3)6,82%

*Até o pregão do dia 09/01/24. || Fonte: Bloomberg

Cabe reforçar que, apesar de ser a maior queda do Ibovespa até o momento, seguimos confiantes com o potencial de longo prazo da MRV, que deverá continuar se beneficiando do atual ciclo de queda dos juros e das mudanças do programa Minha Casa Minha Vida.

Além disso, por meio de seu negócio principal e através de suas controladas (em especial, a americana Resia), a incorporadora deve continuar crescendo, podendo atingir um lucro líquido de até R$ 1,6 bilhão em 2025 — com isso, negocia a apenas 3,5x lucros 2025. 

Já a maior alta até aqui, de 3R Petroleum, pode ser justificada pela divulgação de seus dados de produção de dezembro e consolidados do 4T23 e 2023. 

A petroleira, que viu suas ações serem severamente impactadas pelo mau humor do mercado em 2023, inicia 2024 com o pé direito e entregando aquilo que os investidores tanto esperam dela: execução.

Após alguns períodos de certa instabilidade em sua produção, a 3R parece ter corrigido a rota e apresentou uma operação estável pelo 4º mês consecutivo.

Em dezembro, a companhia registrou a maior produção de sua história, de 47 mil barris de óleo diários — alta de +86% em relação ao mesmo período do ano anterior. Já no trimestre, a produção média consolidada foi de 45,9 mil barris por dia (+198%) e, no ano, de 34,4 mil (+175%). 

Dados de produção mensal, trimestral e anual da 3R.
 Fonte: 3R Petroleum

Após a excelente divulgação, os papéis da 3R reagiram positivamente e agora acumulam alta de mais de +8% em 2024. Ainda é pouco, mas já é um sinal de recuperação após suas ações caírem -29% no último ano.

Se continuar no mesmo ritmo nos próximos meses e trimestres, vai ser apenas uma questão de tempo para o mercado precificar corretamente seu grande potencial (produção vai dobrar novamente nos próximos anos), ainda mais negociando a míseros 3x Ebitda para 2024.

Porém, nem só de Ibovespa vivem os investidores brasileiros. Existem outros destaques positivos de empresas que estão em outros índices da nossa bolsa. 

+100% em apenas um pregão

Logo no primeiro pregão de 2024, tivemos uma ação brasileira subindo mais de +100% em um único dia (no ano, a alta é de +66%). Trata-se da Sequoia (SEQL3). 

Ações da Sequoia sobem 100% em um dia.
 Fonte: Google Finance

A grande euforia com seus papéis se deve à aprovação da renegociação de grande parte de suas dívidas junto aos seus credores, além do anúncio da fusão com o grupo paulista de serviços logísticos MOVE3.

Em 2023, a Sequoia foi uma das empresas que mais perderam valor. As ações encerraram com baixa de incríveis -87% no período, sendo a segunda maior queda da bolsa brasileira no ano passado, só perdendo para os papéis da Americanas (AMER3), que caíram -90%.

Os papéis do grupo foram pressionados, principalmente, por algumas decisões equivocadas de expansão e por suas altas dívidas que, em um cenário de juros elevados e mercado de crédito desafiador, trouxeram impactos severos aos seus resultados.

Agora, com a renegociação de 75% de seu endividamento, a sua alavancagem deve cair de 5,8x para apenas 0,1x seu patrimônio líquido. Com isso, a tendência é que seus resultados comecem a apresentar melhoras a partir do 1T24.

Já a fusão com a MOVE3 é mais uma boa notícia para a companhia, visto que cria um dos líderes privados no segmento de encomendas expressas e soluções logísticas no país.

Contudo, ainda que o noticiário seja positivo, a companhia precisa confirmar as melhores expectativas do mercado nos próximos trimestres antes de a enxergarmos como uma oportunidade. No momento, seguimos de fora de SEQL3.

Ventos favoráveis

Outra empresa cujas ações também valem centavos e que já se destacou positivamente no ano é a Aeris (AERI3). 

No último pregão, 9/01, os papéis da fabricante de pás eólicas chegaram a subir mais de +20% no dia, mas acabaram fechando em alta de “apenas” +6%

O movimento pode ser explicado pela prorrogação do contrato entre a Aeris e a fabricante de aerogeradores Vestas, até 2028, para o fornecimento de diversos modelos de pás com capacidade equivalente de 8,8 GW e receitas potenciais de até R$ 7,6 bilhões.

Negociada a centavos, Aeris vê receitas turbinadas em até R$ 7,6 bi, diz manchete do Money Times.
 Fonte: Money Times

A notícia é um alento para a companhia e seus acionistas, já que, no 3T23, a Aeris apresentou uma redução em sua carteira de pedidos, com sua receita potencial de longo prazo caindo para cerca de R$ 4 bilhões e apenas 5 GW de volumes equivalentes.

Além disso, apesar da expansão de sua receita e Ebitda trimestrais, seu lucro líquido segue bastante pressionado. Na verdade, com uma alta alavancagem em meio ao cenário atual, a Aeris continua acumulando prejuízos. 

Os novos contratos e a oferta primária recente de R$ 400 milhões podem trazer um certo alívio no curto prazo, porém ainda é cedo para falar em recuperação de suas ações. 

Desde que atingiram suas máximas, dois meses após seu IPO, em novembro de 2020, os papéis da Aeris já acumulam baixa de -93% (para retomar os mesmos patamares, precisariam subir cerca de +1.400%). Mesmo com a queda, não vemos muitas oportunidades na ação e, por isso, AERI3 é outra que acompanharemos apenas do lado de fora no momento.

No gráfico, queda de 93% das ações AERI3 desde 2020.
 Fonte: Bloomberg

Nem tudo são flores

Voltando para os destaques negativos, além da MRV, outra incorporadora de baixa renda que figura entre as maiores quedas da nossa bolsa é a Tenda (TEND3).

Após subirem mais de +250% em 2023 (maior alta entre as Small Caps no período), impulsionadas pelos mesmos fatores de MRV, as ações da Tenda agora passam por um momento de correção, com queda de -25% em 2024.

Apesar do cenário macroeconômico ainda favorável para o segmento, a divulgação de seu guidance (projeções) para 2024 não animou o mercado

Guidance da Tenda sinaliza caminho certo, mas ainda com pressões de curto prazo, diz manchete do InfoMoney.
 Fonte: InfoMoney

Os números consolidados até agora são positivos (vendas líquidas de até R$ 3,5 bilhões, margem bruta de até 31% e Ebitda de até R$ 425 milhões), mas os investidores ainda enxergam dificuldades, principalmente para sua controlada ALEA, que deve seguir com margem bruta bem inferior (até 11%) e Ebitda negativo em 2024. 

Com possíveis pressões operacionais de sua subsidiária e considerando a sua dificuldade atual em gerar lucro (acumula prejuízos nos últimos 8 trimestres), a maior parte dos bancos manteve suas recomendações como “neutro” para TEND3. 

Assim como os bancos, também não vemos grandes oportunidades no momento e, com isso, seguimos com nossa preferência por MRVE3 no segmento.

Resultados > variações

Ainda que estejamos falando de destaques em termos de variações percentuais, não devemos utilizá-las para basearmos nossas decisões de investimento na bolsa de valores. 

Não é porque uma ação caiu -X% ou subiu +X% que, necessariamente, trata-se de uma boa oportunidade em determinado momento. As variações de curto prazo são, em sua maioria, irracionais e dependentes do humor do mercado. 

No longo prazo, porém, as variações estão ligadas diretamente aos resultados que as empresas entregam — tanto positivamente quanto negativamente.

É por isso que devemos sempre focar nossas atenções em companhias que possuem boa visibilidade futura para seus resultados, como é o caso da 3R Petroleum (RRRP3). 

Mesmo que turbulências apareçam no meio do caminho, uma hora o mercado passa a precificar de forma mais adequada os resultados das empresas e seus potenciais de longo prazo. Não tem como fugir: ao longo dos anos, ações seguem resultados

Não compre pensando em variações. Compre resultados