Inflação e poder de compra: como proteger sua renda com ativos reais
A inflação corrói seu poder de compra, mesmo com salário maior. Entenda por que o Brasil só freia os preços por um lado e como os FIIs protegem sua renda
A inflação faz o dinheiro valer menos com o passar do tempo, e isso pode acontecer mesmo quando o salário sobe. Entenda por que o Brasil só consegue frear os preços por um lado da equação, por que o dinheiro já "morreu" várias vezes por aqui e como ativos reais, como os fundos imobiliários (FIIs), podem ajudar a proteger a renda.
Todo trabalhador brasileiro conhece o castigo de Sísifo na prática, mesmo sem nunca ter lido um único verso de mitologia grega.
Há um mito grego que resume, em uma única imagem, a sensação de "trabalhar muito e não sair do lugar". Aquilo que todo trabalhador brasileiro sente na pele todos os dias.
É o castigo de Sísifo: condenado pelos deuses a empurrar uma pedra enorme até o topo de uma montanha, ele sempre chega perto e, no último metro, vê a pedra escapar de suas mãos e rolar de volta à base. Depois, recomeça o ciclo, que dura para sempre.
O castigo de Sísifo e a corrosão do poder de compra
Troque a pedra pelo seu custo de vida. Troque o esforço de Sísifo pelo seu trabalho assalariado e você terá um vislumbre do objetivo do nosso bate-papo de hoje.
Você passa o ano inteiro empurrando a pedra montanha acima. Por um instante, parece que vai chegar ao topo. Mas a inflação já está ali, empurrando a pedra em direção oposta.
Os preços sobem mais rápido do que seu reajuste de salário chega, e a pedra rola de volta: o mesmo salário compra, na prática, cada vez menos.
Você não está estacionado por falta de trabalho. Está estacionado porque a montanha também está subindo.
Isso tem nome técnico: poder de compra. R$ 5 mil hoje não são R$ 5 mil de cinco anos atrás. O número não mudou, mas o que ele representa encolheu. É o detalhe cruel do castigo: o esforço é real, mas o topo se move com você.
Essa pedra não rola para baixo sozinha. Ela é empurrada por duas forças.
Como combater a inflação: os dois freios e por que o Brasil só usa um
Tecnicamente, existem duas formas de combater a inflação. A primeira, mais conhecida, ataca a demanda: subir a Selic encarece o crédito, esfria o consumo e reduz a pressão sobre os preços.
Funciona, mas dói na hora, com nome e sobrenome: empresa investindo menos, crédito imobiliário mais caro, desemprego subindo e empresas quebrando. É remédio amargo e visível.
A segunda via ataca o outro lado da equação: aumentar a oferta. Se a economia produzisse mais bens e serviços, uma maior quantidade de reais em circulação perseguiria uma maior quantidade de produtos e serviços. E o preço, no equilíbrio, cederia.
É o caminho “sem dor”, em teoria: crescer a produção em vez de reprimir o consumo.
É como se o governo imprimisse dinheiro de um lado e a economia imprimisse novos produtos e serviços de outro, para equalizar tudo.
O problema é que esse segundo caminho exige um ambiente que o Brasil raramente entrega: incentivo à produção.
Significa prover um excelente ambiente para o empresário, além de segurança jurídica, desenvolver a confiança do investidor de longo prazo e uma política fiscal que não mude de humor a cada ciclo eleitoral.
Aumentar oferta significa alguém decidir abrir uma fábrica, expandir um galpão e contratar mais gente. E isso só acontece quando quem investe acredita que as regras do jogo vão continuar as mesmas daqui a 10 anos e que será recompensado pelo aumento do risco.
Em uma sociedade que trata o empresário como adversário, esse investimento simplesmente não vem na escala necessária. Isso tem um custo implícito, silencioso, que poucos associam à causa real: sem o freio da oferta, o Brasil fica dependente exclusivamente do freio da demanda.
Selic alta, crescimento reprimido, ciclos de juros mais longos e mais dolorosos do que precisariam ser. Não é falta de ferramenta. É falta de ambiente para usar a ferramenta mais leve.
Por que o Brasil já trocou de moeda tantas vezes
Se você acha que “imposto inflacionário” é um conceito abstrato, a história monetária do Brasil é a prova concreta de que dinheiro pode morrer.
O Brasil já trocou de moeda diversas vezes. Não por capricho estético, mas porque cada moeda anterior teve sua confiança e seu valor corroídos até virar pó.
Do mil-réis ao cruzeiro, deste ao cruzeiro novo, depois ao cruzado, ao cruzado novo, de volta ao cruzeiro, depois ao cruzeiro real e, finalmente, ao real, em 1994.
Cada uma dessas trocas foi, na prática, um atestado de óbito. Um governo imprimindo moeda além da capacidade produtiva da economia para financiar gasto público sem precisar cobrar imposto explícito, sem precisar de aprovação do Congresso, até o ponto em que a própria população deixa de confiar na moeda.
Ninguém quer guardar uma moeda que perde valor todos os dias. O comércio passa a reajustar preços mais de uma vez por dia. E, quando a confiança se esgota de vez, resta ao governo cortar zeros, trocar o nome da moeda e recomeçar, como quem troca de nome após falir um negócio.
É a senhoriagem em sua forma mais bruta: o imposto inflacionário cobrado sem boleto, sem assinatura, sem votação, só a lenta transferência de poder de compra de quem guarda a moeda para quem a emite.
Transferência de riqueza do cidadão, que trabalha, para o Estado, que impõe sua vontade.
Ativos reais e FIIs: como proteger a renda da inflação
Você não escolhe se a pedra vai rolar, mas pode escolher a inclinação da montanha em que empurra. Ativos reais e ativos indexados à inflação mudam esse ângulo a seu favor. É um caminho alternativo, menos íngreme!
Um ativo real não é promessa de valor: é valor em si. São bens físicos, tangíveis, ou direitos atrelados à economia real. Eles possuem valor intrínseco e servem para produzir riqueza. Os Fundos de Investimento Imobiliário foram estruturados, justamente, para capturar essa dinâmica:
- FIIs de tijolo, donos de imóveis, bens tangíveis, com contratos comerciais indexados a IPCA ou IGP-M: quando o custo de vida sobe, a receita do fundo — e seu rendimento — sobe junto.
- FIIs de papel com CRIs em IPCA+: dívida com garantia imobiliária que entrega remuneração real contratada, acima da inflação, sem depender de previsão nenhuma.
Não é sobre vencer a inflação (que sempre vai existir).
Esse mito não tem final feliz, e a economia real também não. É fazer sua parte para que a sua renda suba com a pedra, em vez de só sentir o peso.
O investidor que entende inflação não tenta adivinhar a próxima curva da montanha. Ele constrói uma renda que sobe com ela.
Sua renda sobe com a inflação ou é empurrada por ela?
Sísifo nunca chega ao topo. Esse é o ponto do mito, não uma falha dele. O Brasil, historicamente, também nunca resolveu a inflação pela via mais barata, porque não construiu o ambiente que essa via exige: confiança e estabilidade.
A pergunta certa não é “quando a inflação vai parar”. A pergunta certa é: sua renda está posicionada para subir com a pedra ou só para ser empurrada montanha abaixo?

