O Brasil foi eliminado nas oitavas de final da Copa do Mundo. No país, a felicidade de muita gente parece depender do resultado de uma partida de futebol. Talvez isso diga menos sobre futebol e mais sobre a forma como buscamos segurança, liberdade e realização no dia a dia.

Essa reflexão me levou a pensar em outro tema: a relação entre dinheiro, felicidade e fundos imobiliários. Afinal, mais do que gerar renda passiva, investir em FIIs pode ser uma forma de construir liberdade para fazer escolhas ao longo da vida.

Ao longo deste artigo, vamos passar por um filme que faz chorar, por um gigante norueguês que eliminou a Seleção (e deu uma lição de humildade), por um país que transformou riqueza em prosperidade de longo prazo e por um livro provocador sobre como usar o dinheiro antes que seja tarde.

No fim, todos esses caminhos levam à mesma pergunta: afinal, qual é o verdadeiro papel do patrimônio na construção de uma vida feliz?

Prepare o café. Ou melhor, a cerveja. Skol (saúde, em norueguês)!

O que a história de Chris Gardner ensina sobre renda passiva

Se você nunca assistiu a À Procura da Felicidade (2006), pare tudo o que está fazendo e invista 2h da sua vida neste propósito. 

Will Smith interpreta Chris Gardner, um vendedor falido que, do dia para a noite, se vê sem dinheiro, sem casa e sem esposa, mas com um filho pequeno para criar e uma vontade inquebrável de dar a volta por cima. E só para ficar mais comovente ainda: o filme é baseado em fatos reais.

A cena que fica marcada na memória de qualquer um (ficou na minha) é aquela em que pai e filho dormem no banheiro de uma estação de metrô. Chris segura a porta com o pé, tapa os ouvidos do menino e chora em silêncio para não assustar a criança. 

É um dos retratos mais honestos já feitos sobre o que é não ter dinheiro. Não é sobre a falta de luxo: é sobre a falta de chão e teto.

O que muita gente não percebe é que o filme se chama, no original, The Pursuit of Happyness, com a palavra "happiness" escrita errada de propósito, do jeito que aparecia pichado no muro da creche do filho de Chris. A busca (pursuit) é o ponto central. Não a felicidade em si, mas a perseguição dela.

O erro de grafia representa como a felicidade pode não vir de forma perfeita e sem obstáculos. Pode vir de forma diferente para cada um. Também, que não existe uma “felicidade errada”.

Para Chris, felicidade tinha um significado muito concreto naquele momento: uma vida financeira estável para ele e para o filho. Um teto. Comida na mesa. A possibilidade de escolher. 

Ele não sonhava com fortunas, sonhava com proteção, conforto e previsibilidade.

Aqui já cabe o primeiro paralelo com o nosso mundo dos FIIs. O que Chris buscava, no fundo, era fluxo de caixa. Uma renda recorrente, previsível, que sustentasse e protegesse sua vida e de seu filho. Queria o básico para uma vida digna.

É exatamente isso que um bom fundo imobiliário entrega ao cotista: aquele pinga-pinga mensal que, com o tempo, deixa de ser complemento e passa a ser fundação. 

A liberdade de Chris começava com um contracheque. A busca pela liberdade do investidor de FIIs começa com o rendimento ainda pequeno que cai na conta todo mês, chova ou faça sol.

O que a Noruega pode ensinar aos investidores

Mudemos de cenário. Da corretora de valores americana para o gramado da Copa do Mundo.

Poucos brasileiros vão esquecer tão cedo aquela partida. Erling Haaland, o gigante norueguês, marcou os dois gols que eliminaram o Brasil da Copa do Mundo. Foi doloroso. 

Futebol, para o brasileiro, nunca é só futebol. É identidade, é infância, é o país inteiro segurando a respiração ao mesmo tempo. Talvez um dos poucos momentos felizes em que as pessoas esquecem suas agruras.

Mas houve um detalhe que, para mim, valeu mais do que o placar. Note que não sou muito afeito ao futebol, conheço pouco do assunto, então não vou me estender. Mas enxergo com olhos menos apaixonados o contexto. 

No auge da vitória, Haaland não zombou, não provocou, não fez pose de conquistador. Ele foi um cavalheiro, educado. E, em um gesto que viralizou, saiu de uma entrevista ao vivo ao ver o Vini Jr. passando, só para cumprimentá-lo com um abraço de respeito. Venceu dentro de campo e fora dele.

Por que isso importa em uma newsletter sobre investimentos? Estamos em busca da felicidade, lembra? Vamos dar um pulo no país de Haaland, o cavalheiro conquistador.

O conceito de koselig e a riqueza silenciosa

Koselig é um conceito de vida norueguês que se aproxima, no nosso idioma, da palavra conforto, aconchego e felicidade. É um estilo de vida, um sentimento bom, que permeia a felicidade.

Afinal, dinheiro traz ou não felicidade? Depende. Não aceite ditados e respostas prontas como verdade. Vamos ver o que o povo norueguês nos ensina a respeito. Vejamos como a Noruega uniu dinheiro e felicidade.

A Noruega descobriu petróleo no Mar do Norte no fim dos anos 1960 e ficou, de uma hora para outra, absurdamente rica. No entanto, fez algo que nenhum país fez: em vez de torrar a fortuna rápido para fazer a fama de bonzinho de um governo no curto prazo, criou um fundo soberano. Algo para durar para o longuíssimo prazo.

Hoje é o maior fundo desse tipo do mundo, com trilhões de dólares. 

A Noruega transformou uma riqueza finita (o petróleo acaba) em renda perpétua para as futuras gerações (ativos financeiros). 

Repare na engenharia: eles pegaram um ativo que se esgota e o converteram em um fluxo de caixa eterno. É o que fazemos transformando renda de trabalho em cotas de FII de tijolo e de papel. O patrimônio que se transforma em renda, o carrego que atravessa gerações.

Hoje, cada norueguês que nasce herda US$ 400 mil (ou R$ 2 milhões). Já cada brasileiro que nasce herda R$ 50 mil em dívida pública. E também temos petróleo: nossa reserva é estimada em 16 bilhões de barris de petróleo. A reserva da Noruega é menor, estimada em 7 bilhões de barris. Percebe a diferença?

Agora vem o mais interessante: o que os noruegueses fazem com essa riqueza no dia a dia. Eles não ostentam! Ostentar é visto com péssimos olhos na maioria dos países europeus.

Não há uma cultura de carros de luxo, mansões gigantes ou relógios caríssimos para exibir. Para esse estilo de vida, há uma palavra que resume o jeito de viver por lá: koselig.

Koselig é uma daquelas palavras intraduzíveis. É a sensação de aconchego, de calor, de intimidade acolhedora. É a vela acesa em uma noite de inverno, o café quente (ou a cerveja gelada) com amigos, a manta, a conversa sem pressa, a natureza logo ali na janela. 

Em um dos países mais ricos do planeta, a felicidade não está associada a demonstrar riqueza, mas à qualidade de vida: estar perto da natureza, da família, do silêncio.

Há uma lição de comportamento financeiro poderosíssima aqui, que dialoga direto com o que Kahneman e tantos estudiosos das finanças comportamentais nos ensinam: gastamos energia demais tentando parecer ricos e energia de menos tentando ser livres. 

O carro do ano impressiona o vizinho por uma semana. Te faz muito feliz por um mês. O fluxo de caixa dos seus FIIs sustenta o seu koselig pelo resto da vida. Riqueza silenciosa dura mais do que riqueza barulhenta.

O livro Morra Sem Nada e o equilíbrio entre viver e investir

Chegamos ao livro que preciso colocar na mesa: Morra Sem Nada (Die With Zero), de Bill Perkins. É um livro provocador, inteligente e, em muitos pontos, libertador.

A tese central de Perkins é sedutora: não adianta acumular dinheiro a vida inteira para morrer com uma conta bancária gorda e um monte de experiências não vividas. O dinheiro, diz ele, tem que ser convertido em memórias enquanto ainda temos saúde e vitalidade para desfrutá-las. 

O conceito principal do livro, que eu gostei muito, é: o dinheiro, convertido em memórias, gera dividendos de lembranças.

Uma viagem aos 30 anos vale mais do que a mesma viagem aos 80. Os "dividendos da memória" pagam juros pelo resto da vida, cada vez que você as relembra. Nisso, ele está absolutamente certo, do meu ponto de vista, e é uma correção necessária para o brasileiro que só sabe adiar a vida "para quando sobrar".

Mas agora vou puxar um pouco o freio de mão. O livro Morra Sem Nada tem um calcanhar de Aquiles: ele pressupõe que você sabe quando vai morrer. E ninguém sabe.

Se calibrar seu patrimônio para chegar a zero exatamente no dia da sua morte, pode viver vinte anos a mais do que a planilha previu.

Você passará duas décadas na pobreza, dependente, sem a liberdade que passou a vida construindo. É o risco de sobreviver ao próprio dinheiro (o que os atuários chamam, sem poesia, de longevity risk). 

Taleb adoraria criticar este ponto: você não pode otimizar sua vida inteira contra um evento (a morte) cuja data é a coisa mais imprevisível que existe. E ele estaria certo, a meu ver.

E há uma segunda razão, mais bonita, para eu discordar do zero absoluto: o legado. Morrer sem nada significa não deixar nada: nem para os filhos, nem para uma causa, nem para quem você gostaria de ver continuar aquilo que começou. 

É escolher não plantar a tamareira (antigamente, a tamareira demorava de 70 a 100 anos para dar frutos). Quem comia os frutos, não tinha plantado a árvore.

Patrimônio restante, ao final da vida, não é fracasso em gastar tudo a tempo. É a possibilidade de que a sua história tenha um capítulo além de você. É plantar uma árvore em cuja sombra sabe que não vai se sentar.

Então fico com a síntese sábia: viva as experiências agora, sim, com generosidade, mas mantenha a fortaleza de pé. 

É aqui que os FIIs brilham de novo. Um bom portfólio de fundos imobiliários não te obriga a escolher entre gastar e guardar: ele preserva o principal, enquanto distribui a renda que você usa para viver. 

Você come os frutos sem derrubar a árvore. Vive das experiências que os dividendos financiam e, ainda assim, deixa a árvore inteira de herança. O contrário do "morra sem nada" é: viva tudo, mas preserve a semente.

Por que fluxo de caixa significa liberdade

Repare que a palavra que conecta todos estes personagens é a mesma: liberdade. Chris Gardner buscava a liberdade de escolher. Os noruegueses conquistaram a liberdade de viver e não precisar ostentar. Perkins pregou a liberdade de gastar sem culpa. 

E o investidor de FIIs persegue a liberdade que só o fluxo de caixa recorrente oferece: a de acordar de manhã e decidir o que fazer com o seu dia sem que a resposta seja ditada pela preocupação de pagar boletos.

Na minha visão, o dinheiro compra a liberdade, mas não a felicidade. Ele remove os obstáculos, abre as portas, tira o medo do chão sumir. Mas o que faz depois de atravessar a porta da liberdade e que vai te fazer feliz depende inteiramente de você.

O que os fundos imobiliários representam para quem investe no longo prazo

Vou terminar com o exercício que mudou a minha forma de investir e de viver. É um exercício simples, mas revelador. Vamos filosofar.

Feche os olhos e imagine-se nos seus últimos dias de vida. Não de forma mórbida, mas honesta. Olhe para trás. O que você gostaria de ter vivido para se sentir realizado? Quais experiências gostaria de ter colecionado? Com quais amigos, com quem da família gostaria de ter passado mais tempo? O que, de verdade, teria feito a sua vida valer a pena? O que te fez feliz em viver?

Quando eu fiz esse exercício, aconteceu algo curioso. A lista que surgiu não tinha quase nenhum item que custasse caro. Tinha o abraço demorado, a viagem com os filhos, a conversa com um amigo antigo, o silêncio de uma trilha, o jantar sem pressa.

Ninguém, ao final da vida, vai sentir muita falta do iate ou do Porsche

E aí veio a virada de chave para começar a viver feliz hoje.

Muitas das experiências mais marcantes, importantes e relevantes da vida são gratuitas. O dinheiro só compra o tempo livre para vivê-las.
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Esse é o ponto de encontro de tudo o que conversamos. O dinheiro, construído pacientemente através dos aportes, dos dividendos reinvestidos, dos juros compostos que já discutimos aqui tantas vezes, não é o objetivo. 

É a ferramenta que compra a coisa mais valiosa e mais escassa que existe: tempo livre. Tempo para os abraços, para as trilhas, para os jantares sem relógio. As experiências que, ironicamente, quase sempre são de graça ou custam pouco.

O investidor sábio faz as pazes com o paradoxo: ele constrói patrimônio com a disciplina de uma formiga, não para exibi-lo como cigarra. O objetivo é comprar de volta o seu tempo e distribuí-lo entre as pessoas e as experiências que te fazem feliz. 

O investidor sábio constrói a fortaleza de tijolo, coleta a renda de papel, respeita os adversários com humildade, como Haaland, persegue a felicidade como Chris Gardner e deixa a árvore de pé para quem vier depois. Ou seja, vive o koselig.

No fim das contas, os FIIs não são sobre ficar rico. São sobre nunca mais precisar escolher entre a segurança e a vida. Para mim, é a mais bela definição de liberdade que eu conheço.