A queda recente do bitcoin trouxe de volta uma narrativa conhecida: dúvidas sobre sua viabilidade, questionamentos sobre seu futuro e a sensação de que “algo mudou”. Mas a pergunta que realmente importa não é sobre o preço: é se o fundamento do bitcoin foi, de fato, alterado.

Uma coisa que eu sempre repito é: “O mercado é extremamente generoso, basta ter paciência”. Como investidores, esse simples ensinamento tem o mesmo valor que um MBA em uma instituição renomada.

Por mais simples que soe, a paciência é a virtude mais importante e, ao mesmo tempo, mais subestimada, em diversos mercados e esferas da vida. 

Penso em mil e uma analogias para elucidar a importância da paciência, desde a esfera humana e interpessoal, até o universo das empresas, dos esportes e dos hobbies, entre outros. Mas nenhuma analogia se traduz tão bem quanto a abordagem prática e direta para isso. 

O mercado de criptoativos exige paciência

Se o ato de investir, por si só, é um exercício de paciência, investir no mercado de cripto é o extremo dessa máxima. 

Muita gente fala que investir em cripto exige “estômago”, tolerância a risco, aguentar a volatilidade, entre tantas outras coisas. Até concordo. Mas, antes disso tudo, há uma pergunta que eu sempre faço para todo mundo que me diz que quer comprar bitcoin, ou alguma outra cripto, pela primeira vez: qual o seu horizonte de prazo?

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Por que a paciência é decisiva para investir em bitcoin

Muita gente associa a volatilidade de cripto a uma oportunidade de ganhos de curto prazo. É a mentalidade do imediatismo, da dopamina instantânea e do “ficar milionário amanhã ou até o final do ano” em seu mais puro estado.

É essa mentalidade responsável pela ruína financeira de milhares, se não milhões, de investidores, todos os anos. 

Tenho uma visão, talvez enviesada, de que o Brasil sofre um pouco mais disso do que a maioria dos outros lugares, talvez por ser impactado frequentemente por notícias de pirâmides financeiras ruindo, ou grandes falhas sistêmicas como a do Banco Master, mais recentemente. Mas posso estar errado.

O fato é que é cultural e, também, geracional essa mentalidade. A paciência é uma virtude cada vez mais escassa e, portanto, cada vez mais valiosa.

Mas por que eu estou insistindo tanto na paciência como a principal virtude de um investidor de cripto?

Basta olhar para o passado para que a resposta salte aos olhos. 

Quedas do bitcoin fazem parte do ciclo

| Tabela mostra que quedas profundas fazem parte da dinâmica histórica do Bitcoin
Fonte: Nord Research

As quedas do bitcoin são, sim, muito severas. Nos demais criptoativos, então, pior ainda. Mas as recuperações de preço são longas e frutíferas.

Comprar um bom ativo em queda, com fundamentos intactos, é sempre uma ótima decisão. Quando olhamos para o bitcoin, seus fundamentos e os cenários que estão se desenhando para o futuro, fica claro que se trata de uma ótima oportunidade. Basta ter o quê? Isso mesmo, você já entendeu.

Os fundamentos do bitcoin mudaram?

Os fundamentos imutáveis do bitcoin são, por si só, excelentes. Estamos falando de uma moeda digital, 100% descentralizada, cuja emissão e validação de transações não dependem de nenhum Estado ou Banco Central. 

Além disso, a inflação é decrescente ao longo do tempo e, hoje em dia, é inferior a 0,90% ao ano. A taxa de emissão de bitcoin cai à metade a cada quatro anos.

 Inflação do bitcoin (BTC). Fonte: BitBO

Oferta limitada e política monetária imutável

O preço do bitcoin é definido puramente por oferta e demanda. A oferta é limitada: serão apenas 21 milhões de BTCs criados, e isso é imutável. 

Hoje, já estamos próximos de 20 milhões de BTC em circulação. Os outros 1 milhão serão criados até o ano de 2140. Ou seja, a inflação será cada vez menor conforme o tempo passa. 

Avanços regulatórios 

Os grandes riscos em torno do bitcoin, no passado, eram a aceitação do ponto de vista regulatório e a adoção institucional. Os últimos dois anos foram determinantes para resolver esse cenário.

Do ponto de vista regulatório, os Estados Unidos foram protagonistas no avanço em 2025, com quatro projetos de lei sendo veiculados para tornar mais claro o que pode e o que não pode ser feito com relação a criptoativos no país. Os EUA, por si só, são responsáveis por aproximadamente 30% do volume mundial de criptoativos. 

Além disso, os principais setores do governo e da economia têm representantes que são apoiadores públicos e/ou investidores do mercado de cripto, desde o vice-presidente J.D. Vance, passando pelo chairman da SEC, Paul Atkins, até o Secretário do Tesouro, Scott Bessent.

A União Europeia também teve bons avanços na regulamentação do mercado de criptoativos e, por aqui, nosso Brasil também não ficou para trás. 

Adoção institucional

Do ponto de vista da demanda institucional, os ETFs aprovados nos EUA vêm provando que essa demanda não só existia, como é cada vez maior. 

 AUM (Assets Under Management ou Ativos sob Gestão) dos ETFs. Fonte: Coinglass 

Apesar da queda recente no AUM, por conta de saídas pontuais, é possível notar que a demanda pelos ETFs não foi algo pontual do lançamento em janeiro de 2024, mas algo que continuou ocorrendo com consistência ao longo de boa parte de 2024 e 2025.

Conclusão

Se o seu horizonte de prazo não é “semana que vem” ou “até o fim de 2026”, investir uma parcela pequena do seu patrimônio em bitcoin é uma decisão excelente nos preços atuais. Basta ter o principal, que você já sabe o que é: paciência!

A visão de longo prazo e a disciplina, associados à paciência, são o que formam vencedores no mercado de criptoativos. Não “buscar a moedinha que vai multiplicar por 10x o seu patrimônio”, ou fazer trades de curto prazo aproveitando a volatilidade.

O investimento por valor, com parcimônia, tendo entre 1% e 5% do seu capital investido em bitcoin e criptoativos, é o complemento perfeito para uma carteira diversificada.