Ter mais informação não torna ninguém um investidor melhor — às vezes, faz o contrário. O que separa quem atravessa bem os ciclos de quem se machuca não é acesso a mais dados: é critério para saber o que ignorar.

Neste texto, você vai entender por que o excesso de notícias e alertas prejudica decisões de investimento, o que um estudo da Vanguard revela sobre o valor real da consultoria financeira, e como definir critérios para filtrar o que realmente importa.

Ler mais relatórios não resolveu o problema dele 

A informação que você precisa não desapareceu, ela só ficou ilegível, soterrada por outras que competem pela sua atenção.

O ruído tem dono, e quem lucra com ele nem sempre é você.

Em um domingo à noite, recebi a terceira mensagem do mês do mesmo cliente. Ele tinha lido uma análise dizendo que era hora de reduzir bolsa

Três semanas antes, havia me mandado outra defendendo exatamente o contrário. No meio das duas, uma terceira sobre juros americanos que contradizia as duas.

Esse cliente não é desinformado. Ele lê mais relatórios do que muitos analistas que eu conheço. Acorda com newsletter, almoça com podcast e vai dormir com o feed do “Twitter” (ou X) aberto. 

Ainda assim, a pergunta que ele me manda é sempre a mesma, com o mesmo cansaço: "Lee, e agora, o que eu faço?"

Depois de quase vinte anos nesse mercado, aprendi a reconhecer o que está por trás desse questionamento. Não é falta de informação, mas o excesso dela. E a melhor explicação que já encontrei para o problema dele não veio de finanças, e sim da física.

A lição de Stephen Hawking sobre informação (e o que ela ensina sobre investir)

Prometo que a física dura poucos parágrafos que valem a pena.

Em 1974, Stephen Hawking mostrou que buracos negros não são eternos. Eles vazam uma radiação tênue que, hoje, leva o nome dele e, em um prazo absurdamente longo, evaporam até desaparecer.

Para entender por que isso virou um escândalo, você só precisa conhecer uma regra: na física, informação não pode ser destruída

O universo funciona como uma contabilidade perfeita e todo lançamento deixa rastro. Queime um livro: as páginas viram cinza, fumaça e calor, e você nunca mais vai ler uma linha. Mas, em princípio, cada partícula daquela fumaça ainda carrega o registro do que estava escrito. A informação não sumiu. Só ficou impossível de recuperar na prática.

O buraco negro parecia ser o único lugar do universo onde essa contabilidade falhava. Se ele engole o livro e depois evapora, para onde foi o que estava escrito? Sumiu. 

Só que, como falei antes, "sumiu" é uma palavra que a física não aceita. Seria como um caixa que desaparece sem deixar lançamento de um débito no extrato do banco. Nasceu aí o paradoxo da informação, e os maiores físicos do mundo brigaram com ele por mais de trinta anos.

A saída mais aceita é quase poética: a informação nunca cai de fato lá para dentro. Ela fica gravada na superfície do buraco negro, embaralhada de um jeito que ninguém sabe ler. Repare na diferença, porque ela é o coração deste artigo: a informação não foi destruída, só ficou ilegível. Existe, está ali, mas ninguém consegue extrair nada dela.

Em 2004, Hawking fez algo raro para alguém do tamanho dele: admitiu publicamente que estava errado. 

Havia apostado com outro físico que a informação se perdia para sempre; convencido do contrário, pagou a aposta com um presente escolhido a dedo: uma enciclopédia de beisebol. 

A piada estava no objeto: uma enciclopédia é o oposto exato de um buraco negro. Milhares de dados, todos preservados, organizados e fáceis de achar.

Guarde essas duas imagens: de um lado, o buraco negro, onde a informação existe, mas ninguém consegue ler; do outro, a enciclopédia, onde qualquer dado aparece em segundos. O seu patrimônio vive hoje entre esses dois extremos e é disso que trata o resto deste artigo.

Por que informação em excesso prejudica o investidor?

Por mais distante que o tema pareça, o investidor de hoje vive dentro de uma versão desse problema. A informação de que ele precisa não sumiu, mas ficou ilegível, soterrada por milhares de outras que competem pela mesma atenção e chegam com a mesma urgência.

Aqui entra a parte que quase ninguém entende: o ruído tem dono (nós, da própria indústria financeira).

A Vanguard, em um trabalho que acompanha há 25 anos o valor gerado pelo trabalho de consultoria financeira, descreve isso com uma franqueza incomum. O modelo de negócio de boa parte da mídia financeira é remunerado por atenção, e atenção se compra com barulho, drama e a sensação permanente de que você precisa fazer alguma coisa agora

Some a isso a nossa biologia: medo e ansiedade encurtam o horizonte de tempo de qualquer ser humano. Quem está com medo não pensa em dez anos, e sim em dias.

O resultado dessa combinação é sempre comportamental, e custa caro.

O estudo da Vanguard mede isso de um jeito bem concreto. 

Pegue uma carteira equilibrada de US$ 1 milhão em janeiro de 2020, um mês antes de o mundo parar. 

Quem manteve o plano ao longo dos anos seguintes terminou com cerca de US$ 1,31 milhão. Quem se assustou no fundo do poço e correu para o caixa ficou com US$ 878 mil. Quem migrou tudo para renda fixa, com US$ 768 mil. 

A diferença entre a primeira e a última linha não é conhecimento de mercado, e sim a decisão de não mexer. E acreditem, como consultor, não faltam casos de destruição patrimonial justamente por decisões como essa.

Gráfico de linha mostrando o valor de uma carteira de US$ 1 milhão desde janeiro de 2020 sob três estratégias: quem manteve o plano original (60% ações/40% renda fixa) terminou com US$ 1,31 milhão, quem migrou tudo para caixa no fundo do poço ficou com prejuízo de 12%, e quem migrou tudo para renda fixa teve prejuízo de 23%.
 

O que a Vanguard descobriu sobre o valor da consultoria financeira

Em 2001, a Vanguard lançou um conceito que reorganizou o debate sobre o valor da consultoria financeira. 

A tese era desconfortável para a indústria da época: o consultor não deveria prometer bater o mercado, porque isso depende de fatores fora do controle dele. Deveria concentrar esforço no que está dentro do controle: alocação adequada, custo baixo, rebalanceamento, eficiência tributária e, sobretudo, comportamento.

A parte útil da vida é a que está sob o seu controle; o resto é barulho que você precisa aprender a evitar.

Quando somam as parcelas, os pesquisadores chegam a uma estimativa que pode alcançar ou passar de três pontos percentuais ao ano de retorno líquido. 

Faço questão de dizer duas coisas sobre esse número, porque prefiro perder o efeito retórico a vender uma ilusão.

Primeiro: é apenas a estimativa de um estudo realizado, e não uma promessa de retorno (a própria Vanguard repete que o valor varia enormemente conforme a situação de cada investidor, e pode ser bem menor).

Segundo: boa parte dessas parcelas depende da legislação americana e simplesmente não atravessa para a nossa fronteira.

Gráfico de barras mostrando a estimativa de ganho anual em retorno líquido por prática de consultoria financeira: coaching comportamental (até 2% a.a.), colheita de prejuízo fiscal (até 1,5% a.a.), estratégia tributária no resgate (até 1% a.a.), seleção de investimentos por custo (até 1% a.a.), localização de ativos entre contas (até 0,6% a.a.) e rebalanceamento disciplinado (até 0,12% a.a.), com coaching comportamental sendo a maior parcela isolada.

Repare que a maior parcela, isolada da lista, não é sofisticação técnica. É acompanhamento comportamental. É alguém do seu lado no dia em que a manchete do jornal dá mais medo e o seu instinto manda vender.

Na prática, aqui dentro, isso tem forma. Antes de recomendar qualquer coisa, escrevemos com o cliente o que ele quer, em quanto tempo e com qual tolerância. Também definimos o que faria essa decisão mudar de ideia. Parece detalhe, mas é o que separa informação relevante de informação descartável. 

Se a notícia de hoje não estava na sua lista de critérios, ela pode ser interessante, pode ser divertida, pode até ser verdadeira, mas ela não é sobre você.

Critério, não mais leitura: como filtrar o que importa na sua carteira

Volto à enciclopédia de beisebol. A escolha do presente era o argumento inteiro: em uma enciclopédia, nenhum dado está perdido. Está tudo lá, ordenado e fácil de achar. Era o jeito de Hawking admitir que a informação do buraco negro nunca foi destruída; ela só ficou impossível de ler.

Tenho duas filhas crescendo em um ambiente de informação infinita, e é impressionante como a habilidade escassa da geração delas não é acessar, e sim saber descartar. 

Acho que vale para o patrimônio também. Você não precisa de mais uma fonte, mais um relatório, mais um alerta. Precisa de uma superfície onde o que importa fique legível, e de disciplina para ignorar o resto.

Isso não se resolve com mais leitura. Resolve-se com critério definido antes, e com alguém do lado para lembrar dele quando for mais difícil lembrar.

Se você chegou até aqui e reconheceu o cliente do início deste texto em você mesmo, vale meia hora de conversa. Sem compromisso e sem apresentação de produto — a ideia é entender o que você quer do seu patrimônio e onde está o ruído que atrapalha.