Com a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2026, investidores começam a avaliar quais ações da bolsa brasileira podem se beneficiar de cada resultado.

A definição do próximo presidente pode influenciar as expectativas sobre juros, política fiscal, crescimento econômico e desempenho das empresas listadas na B3. Nesse contexto, algumas ações podem apresentar maior potencial de valorização, enquanto outras oferecem características mais defensivas, como geração de caixa e distribuição de dividendos.

Entre as oportunidades para o período pós-eleitoral, quatro empresas merecem atenção: Movida e MRV, em um cenário de vitória de Flávio Bolsonaro, e Itaú e Bradsaúde, em caso de reeleição de Lula.

A escolha considera não apenas o ambiente político, mas também os fundamentos de cada negócio, as perspectivas de crescimento dos lucros e os preços pelos quais as ações são negociadas.

Quais ações podem subir se Flávio Bolsonaro vencer as eleições de 2026?

Em um cenário de vitória de Flávio Bolsonaro, empresas mais sensíveis às expectativas econômicas e à percepção de risco podem encontrar espaço para valorização.

A perspectiva de um ambiente mais favorável aos negócios, com possível redução dos juros e melhora das expectativas do mercado, tende a beneficiar especialmente companhias com maior alavancagem financeira e potencial de expansão dos resultados.

Nesse grupo, duas ações merecem destaque: Movida e MRV. Apesar de atuarem em setores diferentes, ambas passam por processos de melhoria operacional e redução do endividamento, fatores que podem ampliar seus resultados nos próximos anos.

Movida: crescimento dos lucros e potencial de valorização

A Movida é uma das ações que podem se beneficiar de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro, principalmente por sua sensibilidade às condições macroeconômicas e pelo processo de transformação operacional iniciado nos últimos anos.

O desempenho recente dos papéis já demonstra essa característica.

Na primeira semana após o resultado do primeiro turno das eleições, as ações da companhia registraram valorização de aproximadamente 75%. No acumulado de 2026, a alta mencionada chega a 81%.

O movimento é ainda mais significativo quando considerado o comportamento anterior dos papéis. Entre abril e agosto, a Movida chegou a perder cerca de 50% de seu valor de mercado.

Desde o início de 2025, entretanto, a valorização acumulada indica que as ações multiplicaram seu preço por mais de cinco vezes.

Parte dessa recuperação está relacionada à mudança de estratégia implementada pela empresa em 2023, após a troca de gestão.

Naquele momento, a Movida reduziu o foco na expansão acelerada da operação e passou a priorizar três objetivos:

  • Redução da alavancagem financeira;
  • Melhoria da rentabilidade;
  • Crescimento sustentável dos resultados.

Os primeiros efeitos dessa estratégia começaram a aparecer nos balanços de 2024 e ganharam força ao longo de 2025.

Nos quatro trimestres analisados, a companhia atingiu ou superou suas projeções de lucro, mesmo com estimativas que apontavam crescimento superior a 100%.

Para os próximos anos, as expectativas apresentadas indicam a possibilidade de o resultado da Movida crescer mais de cinco vezes.

Essas projeções ainda não incorporam completamente os diferentes cenários eleitorais, o que abre espaço para mudanças nas estimativas conforme as expectativas econômicas forem atualizadas.

Por que a Movida pode subir com Flávio Bolsonaro?

A principal oportunidade está na combinação entre melhora operacional e uma possível mudança nas expectativas macroeconômicas.

Como o setor de locação de veículos exige investimentos elevados em frota e depende de financiamento, uma redução das taxas de juros pode favorecer os custos financeiros e a rentabilidade da companhia.

Além disso, a Movida possui beta elevado, indicador que mede a sensibilidade de uma ação às oscilações do mercado.

Isso significa que os papéis podem apresentar movimentos mais intensos que os do Ibovespa, tanto nas altas quanto nas quedas.

Apesar do potencial de valorização, essa característica também aumenta os riscos. Por isso, o tamanho da posição na carteira deve considerar a volatilidade do ativo e o perfil de cada investidor.

Essa conta é mais pessoal do que parece. Uma posição que faz sentido para quem tem pouco do patrimônio em Bolsa pode ser excessiva para quem já está perto de viver de renda. 

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MRV: desalavancagem e recuperação dos resultados

A MRV é outra empresa que pode apresentar desempenho positivo em um cenário de vitória de Flávio Bolsonaro.

À primeira vista, essa possibilidade pode parecer contraditória, já que a construtora possui forte exposição ao Minha Casa, Minha Vida, programa habitacional associado às políticas públicas dos governos Lula.

Entretanto, a tese de investimento na MRV vai além da continuidade ou expansão do programa.

O principal fator está no processo de reestruturação da empresa, que busca reduzir seu endividamento e concentrar suas atividades no segmento de incorporação residencial brasileiro.

Antes da pandemia, a companhia ampliou sua atuação para diferentes segmentos e regiões, inclusive no exterior.

Posteriormente, iniciou um processo de simplificação dos negócios, com a venda de ativos considerados não estratégicos e a concentração das operações no mercado nacional.

A conclusão da venda de ativos remanescentes nos Estados Unidos faz parte dessa estratégia de desalavancagem.

Com uma estrutura financeira mais equilibrada, a MRV pode diminuir despesas financeiras e ampliar sua capacidade de transformar resultados operacionais em lucro.

Como estão os resultados da MRV no Brasil?

Enquanto a companhia avança na reestruturação, sua operação brasileira apresenta indicadores positivos.

As vendas e a produção de unidades habitacionais atingiram níveis elevados, acompanhadas pelo crescimento do preço médio dos imóveis comercializados.

Esse movimento tem sido favorecido pelas condições do Minha Casa, Minha Vida e pelas melhorias operacionais promovidas internamente.

Outro ponto relevante é o comportamento dos custos.

O custo médio por unidade construída vem crescendo abaixo do Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), indicador que acompanha a inflação do setor.

Ao mesmo tempo, o preço médio de venda dos imóveis apresenta expansão superior à inflação da construção.

Essa combinação favorece a recuperação das margens, já que as receitas avançam em ritmo superior ao dos custos.

A perspectiva apresentada pela companhia é alcançar aproximadamente R$ 1,5 bilhão de lucro na operação brasileira nos próximos anos.

Considerando a concentração das atividades nesse mercado, esse resultado pode se tornar uma referência importante para a avaliação do lucro consolidado da empresa.

Com base nessa projeção, os papéis estariam sendo negociados por um múltiplo equivalente a aproximadamente duas ou três vezes o lucro futuro estimado.

Esse patamar sugere potencial de valorização caso a empresa consiga entregar os resultados esperados e reduzir sua percepção de risco.

A MRV também pode se beneficiar de uma vitória de Lula?

Sim. A MRV apresenta fatores que podem favorecer seu desempenho nos dois cenários eleitorais.

Se Flávio Bolsonaro vencer, uma eventual melhora das expectativas sobre juros e risco pode acelerar a reprecificação dos papéis, especialmente com a redução do endividamento.

Por outro lado, caso Lula seja reeleito, a companhia pode continuar se beneficiando das condições do Minha Casa, Minha Vida.

O programa passou por sucessivas ampliações nos últimos anos, criando um ambiente favorável para empresas que atuam na construção de imóveis destinados às famílias de menor renda.

Mesmo que uma eventual mudança de governo reduza o ritmo dessas ampliações, a manutenção das condições atuais já representaria um cenário relevante para a operação brasileira.

Assim, a MRV reúne duas possíveis fontes de valorização: a recuperação dos resultados operacionais e a melhora de sua estrutura financeira.

Quais ações podem se beneficiar da reeleição de Lula?

Em um cenário de continuidade do governo Lula, empresas consolidadas, com elevada rentabilidade e capacidade de distribuir dividendos, podem ganhar relevância na composição das carteiras.

A preferência por negócios com resultados consistentes pode ser especialmente importante em um ambiente de maior incerteza sobre a trajetória das contas públicas e das taxas de juros.

Entre as companhias que reúnem essas características estão Itaú e Bradsaúde.

As duas empresas possuem modelos de negócios diferentes, mas apresentam pontos em comum: atuação em mercados relevantes, rentabilidade elevada e perspectivas de crescimento dos resultados.

Itaú: rentabilidade elevada e dividendos para os acionistas

O Itaú está entre as empresas mais consolidadas da bolsa brasileira e apresenta uma combinação de crescimento dos lucros, eficiência operacional e remuneração aos acionistas.

Mesmo durante um período marcado por juros elevados, o banco conseguiu ampliar seus resultados e entregar valorização expressiva.

Desde o início do governo Lula, em janeiro de 2023, o Ibovespa acumula valorização de aproximadamente 88%, enquanto as ações do Itaú registram uma alta de cerca de 193% no mesmo período.

A diferença demonstra a capacidade do banco de gerar valor em um ambiente macroeconômico desafiador.

O Itaú possui uma carteira de crédito próxima de R$ 1,5 trilhão, com espaço para continuar crescendo, especialmente no varejo.

Entre as perspectivas mencionadas está a possibilidade de dobrar a carteira de crédito desse segmento nos próximos cinco anos.

Apesar de já possuir operações de grande escala, o banco continua investindo em tecnologia, digitalização e produtividade.

Essas iniciativas contribuem para a redução do índice de eficiência, indicador que relaciona os custos operacionais às receitas geradas.

No setor bancário, quanto menor o índice de eficiência, melhor tende a ser o aproveitamento da estrutura operacional.

Outro diferencial está na qualidade da carteira de crédito.

Mesmo com as taxas de juros elevadas nos últimos anos, o Itaú conseguiu manter a inadimplência acima de 90 dias próxima de 1,9%, um dos menores patamares históricos mencionados na análise.

O controle da inadimplência ajuda a limitar as despesas com perdas de crédito, favorecendo os resultados.

Com receitas em expansão e custos controlados, o banco mantém retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) próximo de 25%.

Esse indicador demonstra a capacidade da instituição de gerar lucro a partir dos recursos investidos pelos acionistas.

Quanto o Itaú pode pagar em dividendos?

Além do crescimento operacional, o Itaú oferece perspectivas de remuneração aos acionistas por meio da distribuição de proventos.

Para os próximos anos, a projeção é de crescimento anual dos lucros próximo de 10%, sustentado pela expansão da carteira de crédito, pela eficiência operacional e pelo controle da inadimplência.

Já o dividend yield projetado está na casa de 7%. O dividend yield representa a relação entre os dividendos distribuídos e o preço das ações.

Essas duas estimativas — crescimento dos lucros e rendimento dos dividendos — ajudam a explicar o potencial de retorno do investimento no longo prazo.

Entretanto, elas não devem ser simplesmente somadas como uma rentabilidade garantida, pois o desempenho efetivo depende também do preço pago pelas ações, da evolução dos resultados e das decisões de distribuição de proventos.

Outro fator relevante é o valuation.

Após a valorização recente, as ações do Itaú são negociadas a aproximadamente 11 vezes o lucro. Em um cenário mais favorável para o setor bancário, esse múltiplo pode alcançar 13 vezes, abrindo espaço para uma valorização adicional dos papéis.

Mesmo sem considerar essa eventual reprecificação, o crescimento dos resultados e o pagamento de dividendos continuam sendo fatores importantes para a tese de investimento.

Bradsaúde: crescimento no setor de saúde e potencial de dividendos

A Bradsaúde (SAUD3) é outra empresa que merece atenção em um cenário de reeleição de Lula, principalmente pela diversificação dos negócios, pela rentabilidade e pelas perspectivas de crescimento no setor de saúde.

A companhia passou a integrar a bolsa brasileira em 2026, por meio de uma reorganização societária envolvendo a Odontoprev e os negócios de saúde do grupo Bradesco.

A nova estrutura reúne diferentes operações, criando uma empresa com atuação em planos de saúde, assistência odontológica, medicina diagnóstica e infraestrutura hospitalar.

Antes da reorganização, a Odontoprev possuía valor de mercado próximo de R$ 8 bilhões.

Com a formação da Bradsaúde, o grupo passou a apresentar valor de mercado superior a R$ 40 bilhões no período analisado.

O porte da nova companhia reflete a combinação de negócios relevantes em diferentes segmentos de saúde.

Quais empresas fazem parte da Bradsaúde?

A estrutura da Bradsaúde reúne operações com características complementares.

A Bradesco Saúde possui posição de destaque no mercado de planos de saúde, com oportunidades de expansão principalmente entre pequenas e médias empresas.

A Odontoprev apresenta forte participação no segmento de planos odontológicos, contribuindo para a diversificação das receitas.

O grupo também possui participação próxima de 25% no Fleury, empresa reconhecida pela atuação em medicina diagnóstica.

Outra operação relevante é a Atlântica Hospitais, voltada ao desenvolvimento de infraestrutura hospitalar em parceria com operadores especializados.

Diferentemente de uma administradora tradicional de hospitais, a Atlântica atua na formação de parcerias para o desenvolvimento de unidades hospitalares.

Entre os parceiros mencionados estão Rede D'Or, Hospital Israelita Albert Einstein e outros grupos relevantes do setor.

A operação possui aproximadamente três anos de desenvolvimento e já alcançou mais de 4 mil leitos contratados, conforme os números apresentados.

Um dos principais vetores de expansão está nas cidades do interior, onde existe demanda por novos serviços e estruturas hospitalares.

A combinação entre negócios consolidados e novas oportunidades de expansão cria diferentes possibilidades de crescimento para a companhia.

Qual é o potencial de crescimento e dividendos da Bradsaúde?

A Bradsaúde combina perspectivas de crescimento dos lucros, elevada rentabilidade e potencial de distribuição de dividendos aos acionistas. A diversificação dos negócios e as oportunidades de expansão no setor de saúde contribuem para sustentar essa expectativa.

No último trimestre analisado, o lucro da companhia cresceu aproximadamente 25%, enquanto o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) permaneceu próximo de 25%, indicando uma elevada capacidade de geração de resultados.

Para os próximos anos, a projeção é de crescimento dos lucros em torno de 15%, acompanhado de um dividend yield de dois dígitos nos próximos 12 meses. Caso se confirme, esse rendimento pode tornar a companhia uma alternativa atrativa para investidores que buscam renda passiva.

A estrutura financeira também merece destaque. Com valor de mercado superior a R$ 40 bilhões e cerca de R$ 30 bilhões em caixa, a Bradsaúde apresenta recursos que podem apoiar a expansão das operações e a remuneração dos acionistas, considerando as necessidades financeiras e de capital regulatório do grupo.

Entre as oportunidades de crescimento estão a ampliação da atuação em planos de saúde para pequenas e médias empresas, a expansão da rede hospitalar por meio da Atlântica Hospitais e o desenvolvimento dos demais negócios do grupo.

Por outro lado, a companhia ainda possui um histórico limitado na bolsa sob sua nova estrutura societária, formada em 2026 a partir da reorganização dos negócios de saúde do Bradesco e da Odontoprev.

Por esse motivo, os indicadores históricos disponíveis em algumas plataformas financeiras podem não refletir integralmente a capacidade de geração de resultados da nova companhia, especialmente em relação aos dividendos.

O dividend yield histórico, por exemplo, considera distribuições realizadas anteriormente e pode apresentar diferenças significativas em relação às projeções futuras.

Assim, o potencial de remuneração aos acionistas deve ser analisado em conjunto com o crescimento esperado dos lucros, a geração de caixa e as decisões de distribuição de proventos da companhia.

Como o resultado das eleições de 2026 pode afetar a bolsa?

O resultado das eleições presidenciais pode influenciar o mercado de ações, principalmente por meio das expectativas sobre juros, política fiscal e crescimento econômico.

Empresas mais endividadas ou que dependem de financiamento tendem a apresentar maior sensibilidade às mudanças nas taxas de juros.

Quando o mercado passa a projetar juros menores, essas companhias podem se beneficiar da expectativa de redução das despesas financeiras e de melhora da rentabilidade.

Por outro lado, empresas consolidadas e com geração de caixa recorrente podem oferecer maior previsibilidade de resultados em cenários de incerteza.

Essa diferença ajuda a explicar a divisão entre os quatro ativos apresentados.

Cenário eleitoralAções em destaquePrincipais fatores
Vitória de Flávio BolsonaroMovida e MRVRedução da alavancagem, crescimento e potencial de reprecificação
Reeleição de LulaItaú e BradsaúdeRentabilidade, geração de caixa e dividendos

A relação entre o resultado eleitoral e a valorização das ações, entretanto, não é automática.

Uma eventual vitória de determinado candidato não garante queda dos juros, melhora dos resultados ou valorização dos papéis.

O desempenho das empresas continuará dependendo de fatores como execução operacional, condições de crédito, concorrência e capacidade de crescimento dos lucros.

Como montar uma carteira de ações para o pós-eleição?

A proximidade do segundo turno pode aumentar a volatilidade da bolsa, especialmente entre empresas cujas avaliações dependem das expectativas econômicas.

Nesse ambiente, a composição da carteira deve considerar não apenas o resultado eleitoral esperado, mas também a capacidade de cada negócio de gerar resultados nos próximos anos.

As ações de crescimento, como Movida e MRV, podem apresentar oscilações mais intensas diante de mudanças nas expectativas do mercado.

Já companhias como Itaú e Bradsaúde oferecem exposição a negócios consolidados, com perspectivas de geração de caixa e distribuição de dividendos.

A MRV ainda apresenta um elemento adicional: pode encontrar oportunidades tanto em um cenário de melhora macroeconômica quanto na continuidade das condições favoráveis do Minha Casa, Minha Vida.

Isso reforça a importância de avaliar os fundamentos das empresas, em vez de concentrar toda a decisão de investimento no resultado das urnas.

Mais do que tentar antecipar quem vencerá a eleição, o investidor precisa entender quais empresas estão preparadas para crescer e gerar valor em diferentes cenários.

O segundo turno pode influenciar o desempenho de curto prazo das ações, mas a evolução dos lucros, o controle do endividamento e a qualidade dos negócios continuarão sendo determinantes para os resultados no longo prazo.