Poucas vezes uma eleição chegou tão apertada na véspera. De um lado, Lula, aos 80 anos, em busca de um inédito quarto mandato. Do outro, Flávio Bolsonaro, que herdou o espólio político do pai e carrega o sobrenome mais forte da direita brasileira.  

Nas pesquisas, os dois estão colados, separados por poucos pontos e dentro da margem de erro na maioria dos institutos. Já em mercados preditivos, como o Polymarket, o cenário vem mudando nas últimas semanas, com Flávio abrindo vantagem considerável.

Inclusive, a Bolsa brasileira já fez a sua “aposta”. Setembro foi o melhor mês do Ibovespa desde janeiro, com alta de +5%. 

Diferentemente do início do ano, quando a Bolsa foi puxada por companhias de commodities e outras blue chips, dessa vez as ações subiram em bloco, com destaque para as small caps, que ainda estavam adormecidas em 2026.

A seguir, dois cenários possíveis — não uma previsão de qual vai se confirmar — e o que cada um tende a significar para diferentes tipos de ação.

Onde a Bolsa brasileira está na véspera da eleição

Os últimos meses foram marcados por alta volatilidade para os ativos de risco no país.

Ainda que o Ibovespa tenha apresentado um movimento positivo no ano (inclusive chegando a tocar o patamar de 200 mil pontos), o índice não representa a Bolsa como um todo.

Como já comentado, o desempenho pode ser justificado por empresas de maior capitalização, em especial pelas ações da Petrobras, que acompanharam o forte movimento do petróleo em meio à guerra no Oriente Médio e representaram quase metade do ganho do índice no ano. 

Além disso, vale destacar a entrada de capital estrangeiro no início do ano, em um movimento de rotação para mercados emergentes, mas que durou pouco (saldo líquido saiu de R$ 67 bilhões em abril deste ano para cerca de R$ 11 bilhões nas mínimas de agosto).

A verdade é que, até metade de agosto, grande parte das ações brasileiras estava praticamente abandonada, com o mercado projetando uma chance relevante de reeleição do atual governo e a manutenção do cenário de juros altos por mais tempo. 

Com isso, era normal ver muitas (boas) empresas chegando a negociar a um terço ou até a um quarto do múltiplo (preço/lucro) médio histórico da Bolsa brasileira.

O mercado, porém, virou. Os investidores que precificavam uma chance de ~70% de reeleição de Lula passaram a entender que a disputa estava muito mais acirrada do que imaginavam e, inclusive, começaram até a projetar uma chance maior de troca de governo.

Nas últimas semanas, o cenário se inverteu: a vantagem de Lula, que chegou a quase 50 pontos percentuais (entre julho e agosto), deu lugar a uma vantagem de Flávio, que vem crescendo dia após dia (hoje, em mais de 20 pontos percentuais).

Card do Polymarket mostrando Flávio Bolsonaro com 60,5% de chance e Luiz Inácio Lula da Silva com 40%
 Projeções para a eleição presidencial no Brasil. Fonte: Polymarket

Isso quer dizer que a eleição no país já está decidida? Claro que não. O próprio Polymarket aponta uma chance remota, de apenas 4%, de as eleições serem decididas já no 1º turno (independentemente do lado).

Card do Polymarket sobre a chance de decisão no 1º turno da eleição brasileira, mostrando 4% de chance (queda de 17 pontos percentuais), com a probabilidade oscilando entre 10% e 30% ao longo do ano e caindo para perto de 4% em outubro de 2026.
 Projeções para a eleição presidencial no Brasil. Fonte: Polymarket

Por que a recomendação é não mudar a carteira agora

Enquanto ainda se vive um cenário binário nas eleições, a recomendação da Nord é não fazer grandes mudanças (ou nenhuma) na carteira de ações.

Dito isso, é possível traçar cenários para eventuais vitórias dos dois candidatos — não como previsão do resultado, mas como mapa do que cada desfecho tende a significar para diferentes tipos de ação.

Cenário 1: o que tende a acontecer se Flávio vencer

Uma vitória de Flávio seria lida pelo mercado como uma chance de ajuste fiscal. Repare na palavra: chance. Não é garantia. Mas, para os preços, a expectativa já é suficiente para derrubar o prêmio de risco, abrir espaço para juros mais próximos de 10% do que de 15% e reprecificar justamente as empresas que mais apanharam com a Selic alta.

E é por isso que as small caps são o ativo mais interessante desse cenário. Depois de anos de desempenho inferior ao Ibovespa, elas continuam baratas mesmo depois do rali recente.

Desde o início do atual mandato de Lula, o Ibovespa teve alta de +76%, enquanto o índice de dividendos (IDIV) subiu +87%. O índice de small caps (SMLL), porém, subiu apenas +18%.

Gráfico comparando o retorno normalizado do IBOV (+76%), IDIV (+87%) e SMLL (+18%) desde janeiro de 2023, mostrando os três índices andando próximos até 2024 e depois o IBOV e o IDIV subindo com força a partir de 2025, enquanto o SMLL segue andando de lado.
 Desempenho do IBOV, IDIV e SMLL. Fonte: Bloomberg

Obviamente, entre as empresas que compõem o SMLL, há muita coisa que não gostamos e não recomendamos. Porém, há também diversas posições que possuem excelente visibilidade (e que pode ser ainda melhor em uma eventual mudança de cenário) e que estão de graça.

Entre elas, incorporadoras como LAVV3 e MRVE3, locadoras como MOVI3, bancos menores como INBR32 e PINE4, e boas varejistas como LREN3 e PNVL3. 

Esses foram, de longe, os setores que mais sofreram na mão do mercado nos últimos anos. Mesmo com bons resultados, essas empresas acabaram entrando na “cesta” de irracionalidade de curto prazo e não foram precificadas adequadamente, abrindo ótimas oportunidades.

E se a disputa terminar de outra forma? Nesse caso, a chance de as small caps passarem por uma reprecificação mais acentuada é menor. Contudo, se os resultados dessas empresas seguirem aparecendo (que é a tendência), os múltiplos continuarão baixos (ou até cairão ainda mais) e, em algum momento, uma reação positiva para essas ações pode acontecer de qualquer forma. 

Cenário 2: o que tende a acontecer se Lula vencer

Uma vitória de Lula seria interpretada como continuidade do arcabouço atual. O ponto não é dizer que o governo é bom ou ruim, mas reconhecer como o mercado precifica. 

A percepção predominante entre investidores é de ceticismo em relação a um ajuste fiscal mais profundo em um quarto mandato. Nesse mundo, o prêmio de risco tende a continuar alto, o juro longo resiste a cair e a Selic desce devagar (em linha com o que o mercado já desenha).

Há ainda um efeito de curto prazo, tendo em vista que parte do rali de setembro foi construída em cima da expectativa de vitória da oposição. Se ela não se confirmar, é natural esperar uma devolução rápida justamente nos papéis que mais subiram nesse período.

Em um eventual quarto mandato de Lula, a dinâmica tende a ser parecida com a dos últimos quatro anos (possivelmente não na mesma magnitude). Com expectativa de juros altos por mais tempo, costuma ganhar quem paga o investidor enquanto ele espera. Ou seja: ações de dividendos. 

Isso não quer dizer que você deva comprar qualquer ação de dividendos, até porque o desempenho recente tornou o valuation da classe menos atrativo. Porém, ainda é possível encontrar opções que oferecem previsibilidade e uma boa assimetria no presente. 

Entre elas, empresas de energia como AXIA3 e CPFE3, bancos incumbentes como ITUB4, seguradoras como BBSE3, entre outras sólidas e previsíveis como SAUD3 e PASS3.

Assim como mencionei sobre as small caps em um cenário de continuidade de Lula, essas “dividendeiras” acima seguem como boas oportunidades mesmo em uma troca de governo.

Mais uma vez, reforço aqui: o cenário ainda é binário e não recomendo virar sua carteira de cabeça para baixo “apostando” em quem vencerá as eleições. 

Pensando em ações, foque sempre na capacidade de entrega de bons resultados, mesmo em ambientes desafiadores (como é o caso das empresas listadas neste artigo) e em assimetrias positivas (que permitirão uma maior margem de segurança em seu investimento). 

À medida que as semanas de outubro passam e a visibilidade sobre o que esperar para os próximos quatro anos aumenta, aí sim, ajustes pontuais podem fazer sentido para acompanhar os cenários que vão se definindo.

Como proteger sua carteira neste momento

Se, ainda assim, você está preocupado com o rumo das eleições e o que pode acontecer com o país nos próximos anos, independentemente de quem vença nos próximos dias, e quer saber onde alocar e como proteger sua carteira (em geral) neste momento, também posso ajudar.

Nosso time da Nord Wealth está pronto para te ouvir e mapear sua carteira para entender onde ela está mais exposta à eleição, e mostrar, com números, o que faz sentido ajustar entre os dois turnos. É uma primeira reunião sem custo e sem compromisso.

Não é sobre adivinhar quem vai ganhar a eleição. É sobre garantir que, seja qual for o resultado, o seu patrimônio estará protegido e preparado para o que vem pela frente.