Com o 2º turno das eleições em 25 de outubro de 2026, as atenções devem se voltar, nos próximos dias, para o que esperar da economia brasileira nos próximos anos. E você será bombardeado com ideias do que fazer em cada cenário.

Mas existe uma empresa que pode se beneficiar de uma melhora econômica do Brasil e que, provavelmente, você nunca ouviu falar: a uruguaia dLocal (DLO).

Fundada há apenas dez anos, a companhia já processa dezenas de bilhões de dólares em pagamentos anualmente. Seu negócio consiste em ajudar empresas internacionais a operar em mercados emergentes, conectando sistemas financeiros, moedas e meios de pagamento que nem sempre conversam muito bem entre si.

O curioso é que, apesar de ser uruguaia e de ter as ações negociadas nos Estados Unidos, o Brasil é o maior mercado individual da dLocal. Por isso, ela depende bastante da atividade econômica brasileira, especialmente do consumo digital e das operações de empresas internacionais no país.

O que é a dLocal (DLO) e como ela ganha dinheiro

O problema que a dLocal resolve: receber em dólar de clientes que pagam em reais

Imagine que você seja uma empresa americana de tecnologia querendo vender seus serviços no Brasil. Seus produtos já funcionam, você tem clientes interessados e a internet permite chegar até eles. Mas, na hora de receber o pagamento, aparecem alguns problemas.

O brasileiro quer pagar em reais. Talvez com Pix, boleto ou cartão de crédito parcelado. A empresa americana, por outro lado, quer receber em dólares, sem precisar montar uma estrutura bancária, desenvolver integrações com diferentes meios de pagamento ou se preocupar com toda a burocracia regulatória brasileira.

É justamente esse tipo de problema que a dLocal resolve.

Fundada em 2016, no Uruguai, a companhia começou oferecendo soluções de pagamentos internacionais para empresas que queriam operar no Brasil. 

Com o tempo, foi expandindo suas operações para outros mercados emergentes na América Latina, África e Ásia. Hoje, está presente em mais de 60 países e atende mais de 760 empresas globais.

Infográfico da cadeia de valor da dLocal: consumidores pagam com meios locais (pay-in), a dLocal faz o câmbio e liquida para empresas globais, e também paga usuários finais (pay-out) e plataformas Cadeia de processamento de pagamentos da dLocal.
 Cadeia de processamento de pagamentos da dLocal. Fonte: dLocal, Nord

Pay-in e pay-out: as duas operações da dLocal

A dLocal funciona como uma intermediária na infraestrutura de pagamentos. Por meio de uma única integração tecnológica, seus clientes conseguem acessar diferentes meios de pagamento locais, moedas e sistemas bancários. A empresa cuida das conexões com a infraestrutura financeira de cada país, das conversões cambiais quando necessárias e de parte das exigências regulatórias.

Seu negócio possui duas operações principais:

  • A primeira é o pay-in, quando uma empresa recebe dinheiro de seus consumidores;
  • A segunda é o pay-out, quando precisa fazer pagamentos para terceiros. 

Pense na Uber (cliente da dLocal) recebendo o pagamento de uma corrida e depois transferindo parte desse dinheiro para o motorista.

Vale ressaltar que nem todas essas transações precisam atravessar fronteiras. A dLocal também processa pagamentos locais para empresas internacionais que possuem operações dentro desses países. 

Em outras palavras, sua infraestrutura pode ser utilizada tanto para movimentar dinheiro entre diferentes países quanto para facilitar pagamentos dentro de um mesmo mercado.

E, claro, a empresa recebe uma taxa sobre esses volumes processados por facilitar as operações de empresas internacionais em diferentes regiões.

Quanto a dLocal depende do Brasil

O Brasil é o maior mercado individual da dLocal, representando 19% das receitas. Nisso, existe um detalhe interessante: a operação brasileira apresenta margens brutas superiores à média dos demais países. Ou seja, o Brasil tem um peso ainda maior na rentabilidade da empresa do que nas suas receitas.

Contudo, a relevância do Brasil vem caindo. Em 2023, o país representava 24% das receitas consolidadas. Em 2024, caiu para 20% e, em 2025, chegou a 19%. A expansão internacional da dLocal foi mais rápida que o crescimento brasileiro. 

Em 2024, inclusive, as receitas no Brasil chegaram a cair, de US$ 159 milhões para US$ 152 milhões, antes de se recuperarem para US$ 207 milhões em 2025.

Gráfico de barras empilhadas das receitas da dLocal de 2021 a 2025, em milhões de dólares: o Brasil foi de US$ 60 milhões para US$ 207 milhões e o total, de US$ 244 milhões para US$ 1.094 milhões. Receitas da dLocal: Brasil x resto do mundo (US$ milhões), de 2021 a 2025
 Evolução de receitas no Brasil x Resto do Mundo. Fonte: dLocal, Nord

É aqui que uma melhora mais consistente da economia brasileira poderia fazer diferença. Mais consumo, maior presença de empresas internacionais, crescimento do comércio eletrônico e expansão dos pagamentos digitais podem aumentar o volume de transações que passam pela infraestrutura da dLocal. Como a operação no Brasil é mais rentável, um crescimento mais acelerado por aqui pode ter impacto relevante sobre o lucro. 

Os sinais mais recentes já são positivos. No segundo trimestre de 2026, a operação brasileira registrou aproximadamente US$ 40 milhões de lucro bruto, mais que o dobro do mesmo período do ano anterior. O crescimento veio especialmente de clientes ligados a transporte por aplicativo, viagens e comércio eletrônico.

Se a atividade econômica brasileira continuar ganhando força e a empresa conseguir acompanhar esse movimento, preservando sua rentabilidade, existe espaço para a dLocal capturar ainda mais valor por aqui do que o mercado já espera. 

Resultados da dLocal: receita, lucro e crescimento desde o IPO

Uma característica que me agrada na dLocal é que estamos falando de uma empresa jovem, que cresce rapidamente e já consegue entregar lucros relevantes. Algo que, convenhamos, nem sempre encontramos no universo das fintechs.

Seis gráficos da dLocal de 2021 a 2025 e do 2T25 ao 2T26: volume de pagamentos (TPV), receita, lucro bruto, lucro operacional, lucro líquido e fluxo de caixa livre ajustado Destaques dos resultados da dLocal, de 2021 a 2025 e do 2T25 ao 2T26 (US$ milhões; TPV em US$ bilhões). Fonte: dLocal, Nord
 Destaques dos resultados dos últimos cinco anos. Fonte: dLocal, Nord

Desde sua abertura de capital, em 2021, a companhia apresentou um crescimento bastante expressivo. Suas receitas passaram de US$ 244 milhões para US$ 1,1 bilhão em 2025. 

O lucro bruto, por sua vez, saiu de US$ 130 milhões para US$ 403 milhões, enquanto o lucro líquido chegou próximo de US$ 197 milhões. Não foi uma trajetória perfeitamente linear, especialmente em 2024, mas o histórico é muito bom.

O ano de 2026 mostra continuação nessa melhora. Apenas no primeiro semestre, a dLocal processou US$ 31,7 bilhões em pagamentos, um crescimento de 83%. As receitas cresceram 55%, enquanto o lucro bruto cresceu 34%. O ritmo de expansão continua bastante elevado para uma companhia que já processa dezenas de bilhões de dólares anualmente.

Olhando para frente, as projeções de mercado continuam otimistas. O consenso espera que as receitas cheguem a cerca de US$ 3 bilhões até 2029, com lucro líquido de aproximadamente US$ 466 milhões. Isso representaria crescimentos anuais de 28% e 24%, respectivamente, nos próximos quatro anos. 

Estamos falando de uma empresa que já apresenta ROE próximo de 37%, gera caixa e tem caixa líquido, além de exigir relativamente pouco capital para crescer.

dLocal vale a pena? Valuation, riscos e o que acompanhar

Mesmo com esse crescimento projetado, as ações negociam perto de 15x lucro esperado para os próximos 12 meses. Um múltiplo que parece interessante, embora a queda das margens ajude a explicar parte desse desconto. 

A dLocal já demonstrou que consegue crescer. Em poucos anos, multiplicou suas receitas, expandiu internacionalmente e construiu uma operação lucrativa em um setor no qual muitas fintechs ainda têm dificuldade para ganhar dinheiro. E, pelas projeções de mercado, esse crescimento deve continuar nos próximos anos.

Mas existem riscos:

  • concorrência: o mercado de pagamentos é extremamente competitivo;
  • poder dos clientes: os grandes clientes têm poder de negociação sobre as taxas;
  • margens em queda: o lucro bruto cresce menos que a receita.

Por isso, o que vale acompanhar é se a dLocal consegue continuar aumentando o volume de transações e, principalmente, transformar esse crescimento em lucros cada vez maiores. E, no caso do Brasil, se a economia ajudará nesse movimento.

Enquanto muitos investidores discutem quais empresas brasileiras vão se beneficiar de cada cenário, a dLocal é um exemplo de companhia estrangeira que pode ganhar com uma eventual retomada econômica por aqui.