Como analisar resultados trimestrais de empresas listadas na B3
A temporada do 1T26 acabou, mas, em breve, teremos a próxima. Saiba como avaliar se os resultados de suas empresas são bons ou não
A temporada de resultados do 1T26 para as empresas da B3 chegou ao fim, com centenas de releases tendo sido publicados nas últimas semanas.
O release é um dos documentos trimestrais mais importantes de uma companhia listada, contendo os principais demonstrativos financeiros, bem como as justificativas para as variações de suas linhas e outras informações fundamentais sobre o período.
A maioria dos investidores faz a mesma coisa ao abrir um release: olha o lucro reportado, compara com o ano anterior, dá um suspiro de alívio ou de preocupação e fecha o documento.
O problema é que o release vai muito além do lucro, e quem aprende a ler esse documento consegue antecipar movimentos, identificar oportunidades e evitar armadilhas.
A boa notícia é que você não precisa ser o Warren Buffett para fazer isso.
Neste artigo, quero mostrar onde você pode encontrar essas informações, quais são as linhas mais importantes a serem analisadas, como interpretar os dados, a relação entre resultados passados e perspectivas futuras, e tirar uma conclusão sobre os números analisados.
Espero que, por meio deste, eu consiga ajudar aqueles que estão dando seus primeiros passos na análise e no investimento em ações, mas também aqueles que já investem há mais tempo a refinar seus processos de análise.
Boa leitura!
Onde encontrar os resultados trimestrais das empresas
Antes de analisar um resultado trimestral, você precisa saber onde encontrar esse documento.
Empresas listadas possuem um site focado em ajudar os investidores a conhecerem mais sobre seu histórico e operações, além de ser o espaço para publicarem seus resultados, dividendos, fatos relevantes, entre outros documentos.
Em seu buscador preferido, basta escrever o nome da companhia que quer analisar e adicionar “RI” ao lado (exemplo: “Marcopolo RI”). Muito provavelmente, o primeiro link já será o site de relações com investidores da empresa a ser analisada.
Dentro do site, basta acessar a área de “central de resultados”, onde encontrará o release referente ao trimestre em questão.

Há também a opção de buscar as informações financeiras em plataformas agregadoras. Contudo, na maioria dos casos, existirá um certo atraso na divulgação dos dados.
Quais são as principais informações para analisar
- Receita líquida
- Lucro bruto
- EBITDA
- Lucro líquido
- Fluxo de caixa
- Endividamento
Eu sei: o que mais chama a atenção dos investidores é o lucro e outras linhas financeiras.
Porém, cabe destacar que os releases também contam com os destaques operacionais de uma empresa, como o tamanho de sua base de clientes, a evolução de sua produção e vendas, o preço médio das vendas, entre outros.
É importante dizer que, além dos dados operacionais “genéricos”, também há os dados específicos de cada setor, como carteira de crédito para bancos, venda sobre oferta para incorporadoras, vendas em mesmas lojas para varejistas etc.
Ambos os dados, inclusive, ajudam a explicar a própria evolução das linhas financeiras.
Um dos demonstrativos financeiros mais importantes contidos no release é a DRE (demonstração de resultados do exercício), que conta a história da receita até o lucro líquido de uma companhia, passando por seus custos e despesas no meio do caminho.
Na linha da receita, conseguimos identificar o quanto a empresa vendeu e se o valor foi influenciado por preço ou volume. Exemplo: a Marcopolo pode apresentar uma receita estável mesmo com queda nas vendas, mas com repasse de preço de seus produtos.
Já no lucro bruto, vemos se a receita está conseguindo superar os custos dos produtos/serviços vendidos, enquanto, no Ebitda, identificamos o quão eficiente a companhia está sendo em suas operações, com base no crescimento ou diluição de suas despesas operacionais (com exceção às linhas de depreciação e amortização).
Por fim, na última linha da DRE, o lucro líquido, vemos as influências dos pagamentos de juros de dívida (mas também a receita de aplicações financeiras), de instrumentos derivativos, de aquisições, impostos, créditos tributários e outros fatores, recorrentes ou não.
Essa é a linha que muitos investidores dão uma maior importância (e que sempre está nas manchetes das matérias de portais do mercado), mas, ao mesmo tempo, é a que precisa de maior cuidado na hora de interpretar suas variações.

Fora da DRE, ainda encontramos outras informações extremamente importantes, como a geração de caixa e os investimentos na DFC (demonstração de fluxo de caixa), além da evolução da posição de caixa e do endividamento no balanço patrimonial.
Como interpretar um balanço empresarial
Ler um resultado é uma coisa; interpretá-lo é outra. É aqui que separamos um investidor de uma pessoa que vê apenas a manchete e toma sua decisão com base nisso.
Na análise fundamentalista, temos duas análises principais na interpretação das informações financeiras: a horizontal e a vertical.
Análise horizontal
Na análise horizontal, vemos a evolução das linhas ao longo do tempo, normalmente comparando os resultados na base anual (versus o mesmo período do ano anterior).
Também podemos fazer uma comparação trimestral, mas é preciso tomar cuidado com as sazonalidades dos negócios (os 4Ts das varejistas são historicamente mais fortes, o agronegócio tem seus ciclos etc.).

Análise vertical
Já na análise vertical, vemos a proporcionalidade, com cada linha sendo um percentual da receita, como a representatividade dos custos (custos/receita) e as margens de uma empresa (exemplos: margem bruta = lucro bruto/receita; margem Ebitda = Ebitda/receita).
As margens, inclusive, são excelentes termômetros da saúde financeira da companhia.
Indicadores financeiros que todo investidor deve acompanhar
Além das duas análises, também podemos utilizar indicadores que combinam informações de mais de um demonstrativo financeiro, como os de rentabilidade.
ROE
Um dos mais usados é o ROE (retorno sobre patrimônio líquido), no qual pegamos uma informação da DRE (lucro líquido) e uma do balanço patrimonial (patrimônio líquido) para avaliarmos o retorno de uma empresa em relação ao capital dos acionistas.
ROIC
Já o ROIC (retorno sobre capital investido) é mais abrangente, utilizando o lucro operacional (também encontrado na DRE) líquido de impostos e o capital total (próprio + terceiros) investido na companhia, que encontramos em seu balanço patrimonial. Retornos acima do custo de capital da empresa normalmente são entendidos como bons indicativos.
Outro indicador extremamente importante é o de alavancagem financeira. Saber o tamanho de uma dívida não diz muita coisa (uma dívida de R$ 1 bilhão pode ser pesada para um negócio, assim como uma dívida de R$ 100 bilhões pode ser leve para outro). O importante é saber se há a capacidade de honrar com seus compromissos e obrigações.
Dívida Líquida/EBITDA
Para isso, usamos indicadores como o dívida líquida/Ebitda, em que identificamos quantos anos de Ebitda (potencial de geração de caixa operacional) uma companhia precisa para pagar suas dívidas de curto e longo prazo (com o caixa já excluído da equação).
Aqui, é sempre importante analisarmos a evolução interna dos números, mas também compararmos com pares do mesmo setor (sempre de tamanhos e segmentos semelhantes).

Resultado passado vs. perspectiva futura
Aqui, mora um dos pilares fundamentais da análise e que explica grande parte das oscilações das ações pós-divulgação de resultados.
Ainda que seja extremamente importante avaliar os números apresentados e sua consistência, é essencial saber como serão os dados que ainda serão reportados futuramente.
Infelizmente, é impossível prever o futuro. Entretanto, muitas empresas divulgam projeções ou, pelo menos, um sentimento interno sobre o que os investidores podem esperar à frente.
Em 95% dos releases, há uma mensagem da diretoria nas primeiras páginas dedicada a alguns destaques e explicações sobre um determinado trimestre, mas é também um espaço para que seja divulgada a visão da empresa para o país, seu setor de atuação e seus resultados.
Além disso, as companhias realizam uma teleconferência de resultados, em que apresentam os números divulgados e respondem perguntas do mercado sobre os próximos balanços.
Só como curiosidade, teve uma empresa da minha carteira recomendada que reportou um prejuízo no 1T26 e, mesmo assim, suas ações subiram +7% no dia da divulgação. Como isso pode ter acontecido? Simples, apesar de um trimestre pressionado (acontece nas melhores famílias), os diretores reafirmaram seu grande potencial na teleconferência.
Algumas companhias até trazem um guidance (projeções formais para linhas operacionais e financeiras), o que facilita projetar os resultados que uma empresa espera atingir no futuro.
Independentemente de como uma companhia passará sua visibilidade ao mercado, é preciso saber que os resultados passados (sejam eles positivos ou negativos) podem não se repetir e o que mais importa é entender o que vem pela frente.
Como saber se uma ação é oportunidade ou armadilha
Por fim, com base na análise do que a companhia entregou e de suas perspectivas futuras, conseguimos ter uma boa noção se uma empresa é boa ou não.
Porém, vale lembrar: nem toda boa companhia é, necessariamente, um bom investimento.
Para identificar uma potencial oportunidade, precisamos comparar seus resultados e visibilidade com o preço que o mercado está pagando por suas ações.
Uma boa forma de fazer essa comparação é utilizando múltiplos de valuation, como Preço/Lucro, Preço/Patrimônio, EV/Ebitda, entre outros.
Com eles, é possível saber quantas vezes o mercado está pagando pelos resultados e comparar com as médias do mercado, do setor ou com as próprias médias históricas.
Por exemplo, se uma empresa registrou um lucro líquido de R$ 100 milhões nos últimos 12 meses e seu valor de mercado (preço por ação x número total de ações) é de R$ 1,5 bilhão, sabemos que o seu múltiplo Preço/Lucro é de 15x (em linha com a média da Bolsa – ou seja, em tese, seus papéis já estariam bem “precificados”).
Se, por meio da sua análise (com base nas sinalizações da companhia e não em achismos), você identificar que o lucro dessa empresa pode atingir R$ 200 milhões nos próximos anos, o múltiplo “real” é de 7,5x lucros e seu upside (potencial de valorização) é de 100%.
Ou seja, caso essa companhia seja boa em parâmetros qualitativos, há uma oportunidade de comprar suas ações no momento.
Pronto, agora sim, chegamos ao fim. Esse foi um resumão dos principais pontos de uma análise de resultado trimestral, contemplando onde achar e interpretar os dados operacionais e financeiros, como saber o que vem pela frente e qual a conclusão final.
Obviamente, existem diversos outros pontos complementares que podem ser adotados para refinar ainda mais a análise, mas acredito que, com as informações deste artigo, você já está pronto para analisar as empresas da sua carteira na próxima temporada de resultados.
Quer aprofundar sua análise? Confira também nossa cobertura da temporada de resultados das empresas da B3.

