Por muito tempo, "made in China" foi sinônimo de produto barato e de qualidade duvidosa. Brinquedos, roupas, eletrônicos simples. 

Essa imagem ficou tão gravada que muita gente ainda olha para a economia chinesa com as lentes dos anos 1990 e, por isso, não percebe o tamanho da transformação que aconteceu nas últimas duas décadas.

O dado que resume essa mudança é o seguinte: pelo critério de paridade do poder de compra (PPP), que ajusta o PIB pelas diferenças de preço entre os países, a China já é a maior economia do mundo

Segundo projeções do FMI para 2026, o PIB da China por PPP é de cerca de US$ 44 trilhões, contra US$ 32 trilhões dos Estados Unidos. Em termos nominais, os EUA ainda estão na frente, mas a distância em poder econômico real é bem menor do que o senso comum sugere.

Gráfico do PIB dos EUA e da China como percentual do PIB global entre 1980 e 2031, mostrando a China ultrapassando os EUA a partir de meados da década de 2010
 

Entender essa trajetória é um pré-requisito para qualquer investidor que queira pensar os próximos dez anos. E é por isso que a China ocupa hoje um espaço relevante nas recomendações da Nord.

Como a China saiu dos produtos baratos para a inteligência artificial?

A ascensão chinesa aconteceu em três etapas, cada uma subindo um degrau na cadeia de valor. 

A primeira foi a dos produtos industrializados baratos. A partir das reformas de Deng Xiaoping, no fim dos anos 1970, e sobretudo depois da entrada na OMC, em 2001, a China ofereceu ao mundo mão de obra abundante, infraestrutura e escala. Virou a fábrica do mundo.

A segunda etapa foi a da sofisticação industrial. Com capital acumulado e engenheiros formados aos milhões, o país passou a dominar cadeias complexas, especialmente as ligadas à nova economia. Para se ter uma ideia, a China responde por mais de 80% de todas as etapas de fabricação de painéis solares, segundo a Agência Internacional de Energia. Nos carros elétricos, marcas como a BYD deixaram de ser curiosidade para disputar mercado de igual para igual com as montadoras tradicionais.

A terceira etapa é a que estamos vivendo agora: inteligência artificial e robótica. Modelos de IA chineses surpreenderam o mercado ao entregar desempenho próximo ao dos americanos com custo muito menor. E, na robótica, a Federação Internacional de Robótica mostra que a China já instala mais da metade dos robôs industriais do mundo a cada ano. Traduzindo: o país que antes vendia mão de obra barata agora está automatizando a própria mão de obra.

Por que a China é uma boa oportunidade de investimento

Porque a China combina escala, capacidade de execução e preços ainda descontados em relação ao potencial. 

Enquanto boa parte do mercado ficou presa à narrativa de risco político e de crise imobiliária, empresas chinesas seguiram ganhando participação global em setores que vão definir a economia das próximas décadas. E aí entra um ponto importante, que às vezes passa despercebido: quando todo mundo olha para um país com desconfiança, os preços embutem esse pessimismo.

Foi exatamente essa leitura que nos levou a recomendar a China como alternativa de diversificação para nossos clientes. 

O resultado já passa de 70% de valorização desde a recomendação. Isso não é citado como prova de acerto e ponto final — é citado porque mostra que a tese de que a China tinha sido excessivamente descontada estava correta. Rentabilidade passada, claro, não garante resultado futuro.

Mas a China é comunista ou capitalista?

Nenhuma das duas coisas em estado puro. E esse é um dos maiores mal-entendidos sobre o país. 

Achar que a China é comunista é um erro. Existe propriedade privada, Bolsa de Valores, bilionários, competição feroz entre empresas e um empreendedorismo que impressiona quem visita o país.

Estimativas amplamente citadas indicam que o setor privado responde por cerca de 60% do PIB e por 80% do emprego urbano. Na prática, dezenas de montadoras de carros elétricos brigam entre si por preço e tecnologia, e só as mais eficientes sobrevivem.

Mas achar que a China é 100% capitalista também é um erro. O Estado é forte, define prioridades estratégicas, direciona crédito, controla setores considerados essenciais e não hesita em intervir quando uma empresa ou um setor sai da linha, como vimos com as big techs e o setor imobiliário.

O modelo chinês é um misto: capitalismo e competição na base, Estado forte no direcionamento. O governo escolhe onde o país precisa chegar (energia solar, baterias, semicondutores, IA) e deixa as empresas competirem entre si para chegar lá. A consequência é direta: escala muito rápida, custos caindo e, às vezes, excesso de capacidade.

O que o confucionismo tem a ver com a economia chinesa?

Muito. Sem entender a cultura, fica difícil entender por que o modelo chinês funciona e por que a sociedade o aceita. 

O confucionismo nasceu dos ensinamentos de Confúcio, pensador que viveu entre os séculos VI e V antes de Cristo. Não é uma religião, é um código de ética e de organização social que moldou a China por mais de dois mil anos. Alguns de seus pilares ajudam a explicar o país de hoje.

O primeiro é a harmonia social. O bem-estar coletivo vem antes do individual, e a estabilidade é um valor em si. Isso ajuda a explicar por que muitos chineses aceitam um Estado forte, desde que ele entregue ordem e prosperidade.

O segundo é a hierarquia e o respeito: dos filhos aos pais, dos alunos aos mestres, dos cidadãos aos governantes. Só que, e isso é essencial, essa relação é de mão dupla. O governante tem o dever moral de governar bem. A legitimidade vem do desempenho, não do voto. O respeito faz parte desse modelo e a desobediência não é aceita. 

O terceiro é a valorização da educação e do mérito. Por mais de mil anos, a China selecionou seus funcionários públicos por meio de exames imperiais extremamente difíceis. Não por acaso, o gaokao, o vestibular chinês, ainda mobiliza famílias inteiras, e o país forma hoje uma quantidade enorme de engenheiros e cientistas por ano.

Traduzindo para o investidor: quem olha para a China esperando que ela se torne uma democracia liberal ao estilo ocidental, ou que entre em colapso por não ser uma, tende a errar. A China segue uma lógica própria, com raízes muito mais antigas do que o Partido Comunista.

Quem vai ganhar a disputa entre China e EUA?

Eu não sei — e desconfio de quem diz que sabe. O futuro será marcado por uma competição tecnológica e comercial entre China e Estados Unidos. 

De um lado, os EUA têm o dólar, os melhores chips, as maiores empresas de tecnologia do mundo e um mercado de capitais sem paralelo. Do outro, a China tem escala industrial, domínio de cadeias críticas, energia mais barata e uma capacidade de execução que poucos países já demonstraram. 

A disputa se dá em tarifas, em restrições à exportação de chips e, cada vez mais, na corrida pela inteligência artificial.

A ascensão da China não é uma promessa, é um fato. Ela já passou os EUA no PIB por PPP, domina a cadeia da energia limpa, lidera os carros elétricos e está na linha de frente da IA e da robótica. Ignorar isso na hora de montar uma carteira é deixar de fora metade da história econômica deste século.

Como não é possível saber quem vai vencer a disputa entre as duas potências, a escolha da Nord é não apostar em um lado só. A aposta é nos dois.

Para o investidor brasileiro, isso significa ter exposição aos EUA, mas também à China, com tamanho compatível com o próprio perfil de risco. Diversificar entre os dois polos da economia global é a forma mais sensata de participar dessa competição sem precisar adivinhar o vencedor.