Existe mais de um jeito de um país deixar de pagar o que deve — e o mais comum no Brasil não é o que a maioria imagina.

Na semana passada, fiz este post:

Dois dias seguidos de empresários me ligando com a mesma pergunta. Mais de 50 mil visualizações depois, ficou claro que a dúvida não era só deles. Ela está na cabeça de quem construiu patrimônio no Brasil e sente, corretamente, que alguma coisa mudou de patamar.

Então vamos responder de frente: o calote clássico, em que o governo simplesmente deixaria de pagar um título, é improvável. Um país que deve na própria moeda raramente precisa recorrer a ele. 

Mas essa é a resposta errada para a pergunta certa. Porque existe um segundo tipo de calote, muito mais silencioso e muito mais frequente na história brasileira: inflação que corrói o valor real da dívida, moeda que se desvaloriza e impostos que sobem para fechar a conta. 

Nesse calote, ninguém deixa de receber. Todo mundo apenas recebe menos do que valia antes.

A pergunta certa, portanto, não é: “O Brasil vai dar calote?” É: “Quem vai pagar a conta e como garantir que não seja o meu patrimônio?

Dívida pública do Brasil: de 79% para 86% do PIB em 2 anos

Vamos falar a verdade: o Brasil está gastando mais do que arrecada, e a diferença não para de crescer. 

A dívida do país caminha de 79% do PIB para 86% em apenas dois anos. Para uma família, seria o equivalente a viver de cartão de crédito sabendo que a fatura dobrará no ano que vem.

Aqui está a parte que mais deveria incomodar você: essa fatura já tem data para chegar, e ela vai chegar independentemente de quem ganhar a eleição. 

Nenhum candidato fala sobre isso no palanque, mas o mercado já percebeu. É por isso que os juros futuros não param de subir: quem empresta dinheiro ao Brasil está cobrando cada vez mais caro para confiar no país. O gráfico abaixo mostra isso com clareza, e ele deveria tirar o sono de quem tem patrimônio concentrado aqui.

Gráfico da precificação de mercado para a Selic em diferentes datas
 

A esse quadro se sobrepõe a eleição mais apertada em muitos anos: as pesquisas de segundo turno mostram 46% contra 45%, sem tendência definida. 

É nesse contexto que vale fazer o exercício que os empresários me pediram ao telefone: o que esperar de cada cenário e o que fazer com o patrimônio em cada um deles.

Cenário A — Continuidade: a conta chega via impostos, moeda e juros

Em um cenário de continuidade do atual governo, a leitura mais provável é a extensão do regime que já conhecemos: gastos elevados, dívida em trajetória de alta e aumento da arrecadação via impostos, movimento que, aliás, já está contratado com a Reforma Tributária, colocando o Brasil a caminho do maior IVA do mundo, perto de 28%, e o ITCMD migrando para alíquotas progressivas.

As consequências práticas desse ambiente tendem a ser conhecidas:

juros elevados por período indefinido, com o Banco Central obrigado a compensar o impulso fiscal e, com Selic alta por mais tempo, aumento das recuperações judiciais e pressão crescente sobre estruturas alavancadas;

saída de capitais e pressão sobre o câmbio, à medida que o investidor global e o investidor local buscam reduzir a dependência de um único sistema tributário, de uma única moeda e de um único arcabouço regulatório;

carga tributária como variável estrutural de decisão patrimonial — tributação passa (e já tem passado há anos) a ser parte central da estratégia de investimentos, sucessão e estrutura empresarial.

O que esse ambiente favorece? 

Pós-fixado segue como âncora, mas com a ressalva importante de que concentração excessiva em risco soberano local passa a merecer atenção redobrada. 

Títulos IPCA+ cumprem o papel de blindagem: se a saída fiscal passar por inflação, eles repassam, ao menos, o índice de preços. 

Mas o grande protagonista desse cenário é outro: a internacionalização do patrimônio. Exposição em moeda forte funciona, ao mesmo tempo, como hedge fiscal, hedge político e hedge institucional. E, se o cenário degringolar além do esperado, ativos reais, aqueles que preservam valor independentemente da moeda em que são medidos, ganham espaço na discussão.

Cenário B — Alternância: alívio de preço não é a solução do problema

No cenário de vitória da oposição, a reação de curto prazo tende a ser positiva para ativos domésticos: melhora para ações e para posições aplicadas na curva de juros, com fechamento do prêmio de risco que hoje está embutido nos vencimentos longos. 

O Ibovespa negocia a 8,3 vezes lucro, abaixo da média histórica de 10,2 vezes. Há um grande desconto reconhecido, e uma definição eleitoral pode ser exatamente o catalisador que falta.

Mas aqui entra a parte que pouca gente quer ouvir: o trabalho de execução política será desafiador no longo prazo. O ajuste que ninguém quis fazer continuará na mesa (a dívida caminha para 86% do PIB em 2027 de qualquer forma), o Congresso seguirá fragmentado e a lista de reformas necessárias é extensa.

Por isso, a depender da intensidade do movimento, um rally de alternância pode ser menos um ponto de entrada e mais uma janela de realização: uma oportunidade para liquidar posições que ficaram grandes demais, reenquadrar a carteira e destravar liquidez a preços melhores.

A síntese dos dois cenários é desconfortável, mas honesta: independentemente de quem vença, desafios gigantes não faltarão.

Como proteger o patrimônio antes da eleição de 2026

A Nord Wealth, uma das melhores wealth managements do Brasil, não faz aposta eleitoral com o patrimônio dos clientes

O papel do nosso comitê de investimentos não é acertar o próximo movimento do mercado, mas equilibrar carteiras para atravessar diferentes cenários sem depender de um único desfecho dar certo. E as decisões dos últimos meses contam essa história:

internacionalização relevante e recorrente: hoje, cerca de 17% do patrimônio sob nossa gestão está internacionalizado. Além da alocação em si, a exposição em moeda forte cumpre a função de hedge estrutural contra a fragilidade doméstica nos dois cenários;

• carteiras leves e líquidas: pós-fixado elevado como base e âncora do portfólio, concentrado em LFT e títulos públicos federais, com liquidez imediata e sem risco de marcação. É a capacidade de reação preservada para outubro;

• juro real capturado sem aposta eleitoral: nos IPCA+, preferência pelos vértices curtos e médios, em que o juro real paga cheio sem exigir posição sobre o resultado das urnas;

risco doméstico calibrado: ações Brasil em posição neutra, preservando a opcionalidade para quando o gatilho aparecer, e crédito privado deliberadamente leve, em momento em que estruturas alavancadas sofrem com Selic elevada por mais tempo.

Há, ainda, um dado que resume por que essa paciência não custa nada: com a Selic em 14,15% e IPCA de 4,52% em 12 meses, o carrego real do pós-fixado está em 9,2% ao ano, acima dos 8% oferecidos pela NTN-B de dez anos. 

O instrumento com liquidez diária e sem risco de marcação paga mais que o título de uma década. Uma configuração que, historicamente, só aparece em picos de aperto monetário.

Gráfico comparando o juro real do CDI pós-fixado com o da NTN-B de 10 anos

Em português claro: o custo de esperar por definições é praticamente zero. Quem está líquido, leve e bem posicionado não precisa adivinhar a eleição, precisa apenas estar pronto para agir quando ela se definir. Afinal, apesar do discurso pessimista aqui, oportunidades sempre podem aparecer... Tudo tem um preço.

A pergunta que importa não se responde nas urnas

O Brasil provavelmente não vai dar o calote que aparece nos livros. Mas o calote silencioso (via inflação, moeda e impostos) já está em curso há décadas, e a conta de 2027 está emitida, seja qual for o nome no Planalto. Portanto, é essencial que todos se planejem adequadamente.

Se você está com dúvida sobre como a sua carteira se comportaria em cada um desses cenários, quanto do seu patrimônio depende de um único desfecho dar certo, quanto está exposto a um único sistema tributário, uma única moeda, um único regulador, essa é exatamente a conversa que vale ter agora, e não depois de outubro.

A Nord Wealth é a consultoria de gestão de patrimônio independente da Nord Investimentos, fundada em 2020 e hoje com mais de R$ 12 bilhões sob consultoria. Diferente de assessorias ligadas a bancos ou corretoras, funciona no modelo fee-based: cobra diretamente do cliente e devolve as comissões geradas pelos produtos financeiros, sem conflito de interesse na recomendação. 

Ao solicitar uma análise de carteira gratuita, vamos revisar a sua alocação, mapear os riscos de cada cenário e garantir que o seu patrimônio esteja preparado para atravessar 2026.