Em pouco mais de três semanas, três ativos bem diferentes entre si subiram forte ao mesmo tempo. A Bolsa brasileira avançou 11%, o ouro ganhou quase 10% em agosto e o bitcoin saltou 26%. 

Quando tanta coisa sobe junta e rápido, a pergunta certa não é “por que eu não estou dentro?”, e sim “o que está sustentando isso e por quanto tempo?”.

É o que tento responder abaixo, tema a tema, separando o que tem fundamento do que é apenas movimento de curto prazo.

Sumário

1. Bolsa Brasil: um rali com dono

O Ibovespa subiu 11% desde 18 de agosto, e o motivo é um só: a eleição. As pesquisas BTG/Nexus, Quaest e PoderData passaram a mostrar empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro no segundo turno. 

Até pouco tempo atrás, o mercado tratava a continuidade do governo atual como quase certa. Agora percebe que a disputa será apertada. Ninguém sabe o resultado, mas a simples percepção de equilíbrio bastou para que parte do mercado montasse posições compradas no que se convencionou chamar de trade eleitoral.

O detalhe que confirma essa leitura está no fluxo. Quem sustentou a alta foi o investidor local. O estrangeiro, ao contrário, retirou R$ 18,1 bilhões da bolsa em agosto, a maior saída mensal do ano. É o oposto do que vimos em janeiro e fevereiro, quando o capital de fora fazia preço enquanto o doméstico vendia.

Gráfico de barras do fluxo estrangeiro mensal na bolsa brasileira, mostrando saída de R$ 18,1 bilhões em agosto de 2026, a maior do ano
 Fonte: Bloomberg. Elaboração: Nord Investimentos

Por que a eleição mexe tanto com a Bolsa

O principal problema que pesa sobre os ativos brasileiros é o fiscal. A dívida pública está em 82% do PIB, mas o que incomoda não é a foto, é o filme. 

O IFI, Instituto Fiscal Independente do Senado, projeta a dívida chegando a 111,6% do PIB em dez anos, e isso já após uma revisão para melhor, porque a projeção anterior apontava 117,7%.

Gráfico de projeção da dívida bruta do governo geral em % do PIB, mostrando cenário atual chegando a 111,6% em 2035, ante 117,7% do cenário anterior
 Fonte: Valor Econômico

O mercado cobra por esse risco na forma de juros futuros elevados. Com juro alto, o IPCA+, o prefixado e a própria Selic pagam taxas gordas, e a Bolsa sofre por dois caminhos. No valuation, porque juros altos comprimem os resultados das empresas e elevam a taxa de desconto usada para precificá-las. E no fluxo, porque se dá para ganhar 13% ou 14% ao ano sem volatilidade na Selic, o incentivo para correr risco em ações diminui bastante.

Daí a lógica do trade. Uma eventual troca de governo poderia melhorar o ambiente fiscal, reduzir prêmios de risco, derrubar os juros futuros e, por consequência, destravar a Bolsa. 

Há muitas dúvidas sobre a capacidade de qualquer governo de entregar o ajuste completo, porque corte estrutural de gastos é impopular por definição. Mas o mercado não precisa de certeza para se mover. Precisa apenas de mais otimismo do que tinha antes.

Ibovespa ainda está barato mesmo após a alta

Mesmo depois do rali, o Ibovespa negocia a 8,8 vezes o lucro projetado, contra uma média histórica de 10,6 vezes, quase um desvio padrão abaixo. 

As small caps estão ainda mais descontadas, a 8,5 vezes contra média de 13,1 vezes. Esses múltiplos, assim como o Tesouro IPCA+ pagando entre 7% e 8%, dizem que boa parte do risco eleitoral já está no preço.

Gráfico histórico do P/E projetado do Ibovespa, mostrando o índice negociando a 8,8 vezes o lucro projetado, abaixo da média histórica de 10,6 vezes
 Fonte: Bloomberg. Elaboração: Nord Investimentos

Não tenho uma visão estrutural muito positiva para a Bolsa brasileira, mas também não fico de fora de uma Bolsa descontada. 

Nossos analistas de ações mostram empresas com resultados fortes no micro e preços amassados por simples falta de fluxo. 

E existe a possibilidade de uma inflexão relevante, seja com troca de governo, seja até com a permanência do atual, caso ele mostre mais compromisso com as contas públicas, já que no ano que vem não haverá espaço para repetir a expansão fiscal dos últimos anos (embora o mercado tenha mais dúvida sobre essa possibilidade de o atual governo promover ajuste fiscal).

Por isso mantemos uma posição controlada, com uma assimetria que consideramos favorável. O potencial de alta, se o cenário positivo se confirmar, é maior do que o potencial de queda, porque muito risco já foi precificado.

Um aviso, porém: a Bolsa deve ficar bem volátil até o segundo turno. Nas últimas duas semanas, essa volatilidade jogou a favor, mas pode virar contra a qualquer momento. Não é hora de ser herói. É hora de ter uma posição moderada e estômago para aguentar o sobe e desce.

2. Ouro: a alta de agosto e a pergunta que ela não responde

O ouro subiu 9,7% em agosto, o melhor mês desde janeiro. 

O gatilho veio de Washington. No dia 19, o Tesouro americano anunciou que vai dobrar as recompras de títulos longos, de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões por operação, em uma tentativa de conter juros de 30 anos que haviam voltado à máxima desde 2007. 

Como efeito, os juros longos recuaram por um curto período, mas impactaram de forma mais relevante ativos como ouro e bitcoin.

Para saber se isso muda alguma coisa, vale olhar de onde o ouro vem.

Como o ouro virou um ativo mais especulativo 

Entre 2024 e 2025, o ouro subiu impressionantes 110%. Após uma alta dessas, o metal já não era movido apenas pela sua função tradicional de proteção. 

Em 2025, os ETFs de ouro receberam US$ 89 bilhões em novos recursos, contra US$ 4 bilhões em 2024, muito acima do recorde anterior, de US$ 49,5 bilhões em 2020. Parte desse fluxo buscava proteção legítima contra riscos inflacionários, fiscais e geopolíticos. Mas havia também o medo de ficar de fora de algo que parecia só subir.

Quando uma tese atrai fluxo demais, ela passa a carregar, além dos fundamentos, as expectativas e o posicionamento acumulado ao redor dela. O ouro não perdeu o papel defensivo, mas ficou mais sujeito a realizações de lucro e ajustes de carteira, típicos de ativos que sobem demais em pouco tempo.

Foi o que 2026 mostrou: após subir 13,3% em janeiro e 7,9% em fevereiro e ultrapassar US$ 5.500 a onça, o ouro caiu 11,6% em março com o início dos conflitos no Oriente Médio, andou de lado em abril e maio e recuou outros 11,7% em junho, de volta à casa dos US$ 4.000. 

Ouro não paga juro e, quando o mercado passou a projetar alta de juros nos Estados Unidos, o custo de carregar o metal subiu. Prata e platina caíram junto.

Gráfico de fluxos semanais de ETFs de ouro por região (América do Norte, Europa, Ásia) sobreposto à evolução do preço do ouro
 

Bancos centrais continuam comprando ouro

Enquanto o investidor entrava e saía, os bancos centrais seguiram comprando, e essa é a parte mais estrutural da demanda

Desde 2022, o movimento ganhou força, com a China à frente. O Banco Central chinês, que em 2022 tinha 3% das reservas em ouro, hoje tem 8%, acumula 21 meses seguidos de compras e voltou a acelerar desde maio, com 20 toneladas só em julho. 

No ano, a Polônia lidera com 90 toneladas, seguida por China, Uzbequistão e Cazaquistão. Em levantamento recente do Conselho Mundial do Ouro, 45% das autoridades monetárias declararam intenção de aumentar suas reservas nos próximos doze meses, a maior proporção da série histórica. 

A lógica dessas compras não é a de quem tenta acertar o melhor preço. É a de quem busca um ativo que não é passivo de nenhum outro país, em um mundo de tensões geopolíticas, contas públicas pressionadas e fragmentação crescente. Uma espécie de apólice contra a perda de confiança nas moedas.

Vale a pena investir em ouro agora?

O ouro continua tendo espaço na carteira, sobretudo como posição estrutural de diversificação, capaz de oferecer descorrelação em ambientes de maior estresse macroeconômico e geopolítico. 

O ponto é que, aos preços atuais, ele pede menos idealização e mais medida. Depois da alta dos últimos anos, o metal parece mais caro e mais sujeito a oscilações do que a imagem clássica de porto seguro sugere.

Por isso, leio a alta de agosto como um movimento pontual, e não como o início de um novo rali nos moldes de 2024 e 2025. 

Para quem tem horizonte longo, uma alocação pequena ainda faz sentido, mais compatível com a função de compor a carteira do que com a ambição de repetir o desempenho extraordinário recente. 

É assim que temos no Nord ETFs, via GOLX11, um ETF de ouro sem impacto cambial que, ao fazer o hedge, ainda se beneficia do diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos. 

Mas ter ouro não é obrigação neste momento.

No fim, o metal precioso não perdeu sua essência. O mercado é que, ao transformá-lo também em objeto de euforia, tornou seu comportamento menos linear e menos previsível. Isso diz tanto sobre o ativo quanto sobre a forma como investidores costumam olhar para aquilo que sobe demais por tempo demais.

3. Bitcoin: 26% em três semanas, após cair pela metade

O bitcoin subiu cerca de 26% desde meados de agosto e voltou a rondar os US$ 80 mil. 

O gatilho inicial foi o mesmo do ouro. Quando o Tesouro americano anunciou as recompras e o dólar cedeu, os ativos que competem com a moeda americana como reserva de valor ganharam tração. Mas, para entender o tamanho da recuperação, é preciso lembrar do buraco.

Por que o bitcoin caiu 48% antes de disparar 

No começo de outubro de 2025, o bitcoin atingiu a máxima histórica, perto de US$ 122 mil. De lá até meados de agosto, caiu cerca de 48%, para a faixa de US$ 63 mil. 

Três fatores explicam a queda:

  • o primeiro foi o custo de oportunidade, porque a expectativa de juros mais altos nos Estados Unidos pesa sobre ativos que não pagam nada para serem carregados, o mesmo raciocínio do ouro;
  • o segundo foi o fluxo, com os ETFs de bitcoin registrando saídas relevantes entre fevereiro e junho;
  • o terceiro, e o mais específico, foi a Strategy. A empresa de Michael Saylor, maior detentora corporativa de bitcoin do mundo, interrompeu as compras, e o mercado passou a temer que ela pudesse ser forçada a vender, o que pressionaria o preço para baixo.
Gráfico da cotação do bitcoin em dólar, mostrando queda de 48% desde a máxima histórica em outubro de 2025, seguida de alta de 26% em agosto de 2026
 Fonte: Bloomberg

O que fez o bitcoin disparar em agosto de 2026

Três forças se somaram em poucas semanas. 

Os ETFs de bitcoin captaram US$ 3,52 bilhões em agosto, o melhor mês de 2026 e o maior desde outubro de 2025, contra apenas US$ 172 milhões em julho. Com isso, o patrimônio desses fundos voltou à casa dos US$ 100 bilhões.

Gráfico de fluxo líquido mensal dos ETFs de bitcoin à vista, mostrando captação de US$ 3,52 bilhões em agosto de 2026, o maior mês desde outubro de 2025
 Fonte: Sosovalue

Houve também um short squeeze, com cerca de US$ 3,5 bilhões em posições vendidas liquidadas entre 19 e 22 de agosto, o que acelera a alta porque força quem apostava na queda a recomprar.

E, em 31 de agosto, a Strategy voltou a comprar, com 4.603 bitcoins por US$ 369,7 milhões, encerrando uma pausa de dez semanas. Saylor resumiu o recado em um único post, com um “We're ₿ack”.

Vale investir em bitcoin agora? 

Temos uma pequena posição em bitcoin na carteira do Nord ETFs, e ela não é obrigação para ninguém. 

É diferente, por exemplo, da minha leitura para a Bolsa americana, que, na minha visão, cabe na carteira de qualquer investidor, do mais conservador ao mais arrojado, variando apenas o tamanho da posição conforme o perfil e o momento. 

O bitcoin não tem a mesma leitura. Apesar de o acharmos interessante para o longo prazo, é um ativo volátil demais para o investidor conservador, que não está acostumado a ver um ativo cair pela metade e depois subir um quarto em três semanas. Foi exatamente isso que aconteceu, e é um bom retrato do perfil de risco real do bitcoin.

Para o investidor moderado a arrojado, uma pequena posição faz sentido. Os preços seguem interessantes na comparação com o pico de outubro, embora menos do que há um mês, quando o bitcoin estava de fato barato. 

Dois pontos pedem monitoramento: a situação da Strategy, que já mostrou o quanto pesa sobre o mercado, e o debate sobre juros nos Estados Unidos, que afeta o bitcoin pelo mesmo canal que afeta o ouro.

Três ativos, três lógicas 

Três ativos, três altas, três leituras diferentes. Na Bolsa brasileira, um trade eleitoral sobre uma base descontada, que merece posição moderada e estômago para a volatilidade. No ouro, um movimento pontual em cima de um ativo que já subiu demais, que pede tamanho pequeno e expectativa calibrada. No bitcoin, uma recuperação com fundamento de fluxo, mas só para quem aguenta o balanço. 

O que une as três é a mesma disciplina, a de dimensionar pelo perfil, e não pela empolgação do momento.