Segunda-feira, 27 de outubro de 2014. O Ibovespa abriu caindo 6%, Petrobras derreteu 12% e o dólar foi ao maior nível em quase uma década. À tarde, a Bolsa já tinha recuperado boa parte da queda, e muita gente foi dormir achando que o pior tinha passado.

Não tinha. E é por isso que, doze anos depois, eu olho para a queda da semana passada com mais calma do que a maioria.

Eleição de 2014 e de 2026: o que o mercado tinha apostado nas duas

A memória do mercado é curta. Mas o roteiro tem semelhanças difíceis de ignorar: anos de gasto público crescendo mais rápido do que deveria, juros altos e uma eleição que terminou diferente do que o mercado tinha apostado. 

Em 26 de outubro de 2014, Dilma Rousseff foi reeleita com 51,6% dos votos válidos. Doze anos depois, quase no mesmo dia, Lula venceu com 51,8%, de virada.

Paro a comparação aqui, de propósito. Não acho que a história vá se repetir, e quem diz saber como ela termina certamente está te enganando. Mas vale relembrar como o filme de 2014 se desenrolou, porque ele ensina algo que pouca gente percebeu na época: o pior não veio no dia seguinte. Veio devagar, ao longo de quinze meses.

Para ver outros momentos em que esperar ou entrar na Bolsa fez diferença, leia Vale esperar para investir na Bolsa? O que 2014, 2016 e 2018 mostram. 

Ibovespa em 2014: o dia seguinte à eleição foi o de menos (−2,77%)

Na segunda-feira, 27 de outubro de 2014, o Ibovespa chegou a cair mais de 6% e fechou em queda de 2,77%, aos 50.503 pontos. O dólar subiu 2,7%, para R$ 2,52, e Petrobras derreteu 12%. 

Doeu, mas muita gente achou que o pior tinha passado. Teve até quem fosse às compras aproveitando os descontos.

Selic em 11,25%, Joaquim Levy e o "alívio de vestiário"

Dois dias depois, o Banco Central surpreendeu e subiu a Selic para 11,25%. Era o começo de um ciclo que só pararia em 14,25%, em julho de 2015. 

Joaquim Levy foi para a Fazenda, o mercado se animou e, em abril de 2015, a Bolsa subiu quase 10% no mês. Foi o que eu chamo de alívio de vestiário: o time volta do intervalo empolgado, mas o placar continua o mesmo.

S&P tira o grau de investimento e o dólar passa de R$ 4

O cenário não mudou porque as contas não fecharam. As metas fiscais foram revistas para baixo, a economia afundou na recessão e, em 9 de setembro de 2015, a S&P tirou o grau de investimento do Brasil. 

Treze dias depois, o dólar fechou acima de R$ 4 pela primeira vez na história. A Bolsa terminou 2015 com queda de 13,3%, o terceiro ano seguido no vermelho.

Janeiro de 2016: o fundo da Bolsa aos 37.497 pontos

O fundo só veio em 26 de janeiro de 2016, aos 37.497 pontos. Quem comprou “barato” no dia seguinte à eleição estava, quinze meses depois, 26% no prejuízo. O dólar bateu R$ 4,17 naquele mês, alta de 65% em relação ao dia seguinte à eleição.

Bolsa ou CDI em 15 meses: −26% contra cerca de 16%

Nesse mesmo período, o CDI rendeu algo perto de 16%, antes de impostos. Quem ficou parado, recebendo juro, atravessou a tempestade com 16% a mais. Quem tentou adivinhar o fundo, com 26% a menos. Mais de 40 pontos de diferença por uma única decisão: o timing.

Gráfico de linha do Ibovespa do dia seguinte à reeleição em 27/10/2014 até dezembro de 2016, com 50.503 pontos no início, mínima de 37.497 em 26/01/2016 (−26%) e 60.227 pontos em dezembro de 2016, com marcos da reeleição, do rebaixamento pela S&P e do impeachment
 

O que mudou a direção do mercado em 2016: por que só um gatilho vira o jogo

A virada só veio quando apareceu um gatilho. No começo de 2016, o impeachment ganhou corpo e o mercado passou a precificar uma mudança de rumo na política econômica. 

Março de 2016 foi o melhor mês da Bolsa desde 2002, com alta de 17%. O Ibovespa fechou aquele ano subindo 39%, e o dólar caiu quase 18%.

Não estou fazendo esse paralelo com hoje, e quero ser claro. Não há nada parecido no horizonte, e não é esse o ponto. 

A lição de 2014 é outra: o mercado não muda de direção porque os preços caíram. Muda quando aparece um motivo. E o motivo mais provável, desta vez, é um só: um ajuste fiscal crível. E, infelizmente, ajuste fiscal não sai do dia para a noite. Precisa de proposta, de votação no Congresso, de execução e de alguns meses de números mostrando que é para valer.

Bolsa em 2026 e em 2014: o que é diferente na velocidade da queda

Seria preguiça dizer que 2026 é 2014. A diferença que salta aos olhos é a velocidade: na segunda-feira passada, o Ibovespa caiu 13,9%, a maior queda desde março de 2020. O dólar subiu 8,4%, a maior alta diária em 23 anos, e os juros futuros longos passaram de 15%. Desde a máxima histórica de 9 de outubro, a Bolsa já devolveu 18%.

Gráfico de barras compara o Ibovespa (−2,77% em 2014 e −13,88% em 2026) e o dólar (+2,68% a R$ 2,52 em 2014 e +8,36% a R$ 5,41 em 2026) no primeiro pregão depois do 2º turno, com Selic na véspera de 11,00% e 13,75%
 

Isso tem dois lados. Uma parte relevante da má notícia pode já estar no preço, algo que em 2014 levou mais de um ano para acontecer. Mas também significa que a volatilidade daqui para frente tende a ser grande, para os dois lados, e que cada notícia fiscal vai mexer com a sua carteira.

Pressa não é estratégia: três atitudes para a carteira depois da queda

Depois de um dia como a segunda-feira passada, a tentação é fazer o movimento grande: comprar tudo no desconto ou vender tudo no medo. Parecem decisões opostas, mas são a mesma aposta: a de que você sabe o momento certo. Em 2014, quem fez essa aposta pagou caro dos dois lados.

O que eu tenho defendido com os meus clientes é mais simples — e menos emocionante. São três coisas: 

  • manter posições no Brasil no tamanho correto, porque os preços já começam a ficar interessantes e ninguém vai acertar o dia exato da virada;
  • manter uma parcela relevante (e crescente) dolarizada, que é o que protege o patrimônio se o fiscal piorar antes de melhorar;
  • manter liquidez de verdade para comprar aos poucos, à medida que o cenário for se desenhando.

Carteira que não depende de acertar a virada: análise gratuita com a Nord Wealth

Não sei se 2026 vai rimar com 2014. Ninguém sabe. O que eu sei é que, naquela época, quem tentou acertar o fundo passou quinze meses errando. E quem tinha caixa, dólar e paciência chegou inteiro a 2016, pronto para aproveitar. O mercado premia muita coisa, mas pressa raramente é uma delas.

Vou ser honesto: eu também não sei quando a virada vem. Ninguém sabe. O que eu sei é que ela não vai chegar com aviso, e que acertar o momento sozinho, olhando a tela entre uma reunião e outra, é muito mais difícil do que parece. É para isso que a Nord Wealth existe. 

O nosso time passa o dia acompanhando juros, Congresso, fluxo e empresas justamente para que você não precise fazer isso sozinho e possa decidir com mais calma.

Se a semana passada te deixou com dúvidas sobre a sua carteira, converse com a gente. Em uma análise gratuita da sua carteira de investimentos, o nosso time avalia onde você está hoje e o que faz sentido ajustar.

A Nord Wealth é hoje a wealth mais premiada do Brasil, com mais de R$ 13 bilhões sob custódia e a única Top Performer nos rankings XP e BTG.