Acordo Mercosul-União Europeia e os rumos da integração internacional
Entenda os impactos econômicos, setoriais e políticos do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia
O acordo entre Mercosul e União Europeia (UE) tomou os noticiários em janeiro com a tão esperada formação da maioria entre os europeus.
Com 15 dos 27 países aprovando o acordo, representando mais de 65% da população da região, tivemos a primeira formalização do que pode vir a ser a maior região de livre comércio do globo.
O que é o Acordo Mercosul-União Europeia?
O acordo entre Mercosul e União Europeia (UE) conecta 27 países europeus aos quatro países do Mercosul, formando uma área econômica que responde por algo próximo de um quinto da riqueza mundial, cerca de US$ 120 trilhões.

Um processo político ainda longo
Apesar da magnitude, o processo está longe de ser simples ou rápido. O que existe hoje é um avanço político relevante, com a expectativa de que a União Europeia formalize apoio institucional ao acordo, mas isso está muito distante de significar sua entrada imediata em vigor.
Mesmo após esse apoio, o acordo ainda precisa atravessar um caminho longo e cheio de condicionantes. O acordo UE-Mercosul depende de uma maioria qualificada entre os países europeus, da aprovação do Parlamento Europeu, que reúne 720 deputados — dos quais cerca de 150 já se posicionaram contra —, além da ratificação pelos parlamentos nacionais dos 27 países da União Europeia e pelos congressos do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.
Trata-se, portanto, de um processo de horizonte longo, sujeito a atrasos, vetos pontuais e renegociações políticas ao longo do caminho.
Como funciona o acordo de livre comércio?
Um dos equívocos mais comuns na leitura do acordo é imaginar uma abertura comercial abrupta, ampla e irrestrita.
Teoricamente, cerca de 91% dos produtos importados pela União Europeia a partir do Mercosul teriam suas tarifas reduzidas ou zeradas ao longo de um período que pode chegar a 15 anos.
Em alguns casos específicos, a redução pode chegar a até 90%, mas distribuída ao longo desses 15 anos após a entrada plena do acordo.
Apesar de parecer um livre comércio, o desenho é exatamente o oposto. O que se propõe é uma redução tarifária lenta, progressiva e cuidadosamente controlada, como vou explicar mais adiante.
Interesses distintos entre Mercosul e União Europeia
No campo dos produtos, o Mercosul entra no acordo com uma pauta claramente interessada em commodities e agroindústria.
Carne bovina, soja, trigo, açúcar e etanol aparecem como os principais vetores de exportação. Os produtos mais exportados em 2025 foram:
- café: US$ 7,3 bilhões;
- soja: US$ 6,5 bilhões;
- produtos florestais: US$ 3 bilhões;
- carnes: US$ 1,8 bilhão;
- sucos: US$ 1,5 bilhão.
O etanol, em particular, ganhou relevância estratégica por seu papel em carros híbridos, ajudando a reduzir emissões em um continente cada vez mais pressionado por metas ambientais.
Do lado europeu, a pauta é mais industrial e de maior valor agregado, com destaque para produtos farmacêuticos, automóveis e equipamentos industriais, além de vinhos, queijos e azeite, estes últimos com peso menor no volume total, mas com importância simbólica no debate político.
A distribuição dos principais produtos europeus, por participação no total exportado, é a seguinte:
- produtos farmacêuticos, exceto os de uso veterinário: 8,4%;
- produtos farmacêuticos, incluindo os de uso veterinário: 7%;
- partes e acessórios de veículos automóveis: 5,5%;
- demais produtos – indústria de transformação: 4,8%;
- óleo combustível de petróleo: 3,7%.
Salvaguardas e limitações
Hoje, por exemplo, produtos como carnes enfrentam imposto de importação próximo de 35% para entrar na Europa, alíquota que, pelo acordo, caminha gradualmente para zero. Esse movimento, no entanto, não ocorre sem contrapartidas.
O texto do acordo incorpora salvaguardas relevantes, desenhadas para acalmar as resistências internas na Europa. Caso as exportações de carne do Mercosul cresçam mais de 5% em determinado período ou caso o valor final do produto fique mais de 5% mais barato que o europeu, a União Europeia pode acionar mecanismos de bloqueio temporário para evitar desbalanceamentos internos.
Além disso, produtos oriundos de áreas desmatadas ficam automaticamente excluídos do mercado europeu, o que reforça o caráter ambiental do acordo e limita parte do potencial de expansão.
O acordo prevê ainda cotas para importações de produtos agrícolas, para que os fazendeiros europeus não sejam prejudicados.
Essas salvaguardas, juntamente com um pacote de incentivo de € 42 bilhões para fazendeiros italianos, foram o que permitiu o fechamento do acordo. A França e a Bélgica, por outro lado, são os principais polos de resistência, muito por conta da sua relevância em produtos agrícolas.
Protestos em vários lugares desses países estão pressionando negativamente a popularidade de seus governantes, como Emmanuel Macron.
Não por acaso, mesmo com avanços, a França já sinalizou que pode recorrer contra o acordo, o que ajuda a entender por que ele foi desenhado com tantas travas e mecanismos de contenção.

Acordo interino: uma solução provisória
Enquanto isso, com a aprovação atual já é possível implementar um acordo interino, que permitiria antecipar algumas reduções antes da ratificação completa, justamente para evitar que todo o processo fique travado por impasses políticos nacionais.
Uma aliança estratégica em tempos de incerteza global
O momento em que o acordo volta à pauta não é casual. A relação entre União Europeia e Estados Unidos se deteriorou nos últimos anos e a dependência excessiva da China passou a ser vista como risco estratégico.
Nesse contexto, o Mercosul surge como alternativa estratégica, não apenas comercial, mas também política. A Alemanha foi a principal fiadora do acordo, com seus interesses em aumentar o mercado consumidor de sua indústria, juntamente com a Espanha e até Portugal.
O papel do Brasil no acordo Mercosul-UE
No acordo Mercosul-UE, o Brasil é o ator central. É o maior país do bloco, o maior exportador e o principal beneficiário potencial. A União Europeia já é hoje o segundo maior parceiro comercial do país, atrás apenas da China.
Estimativas associadas à Apex indicam que o acordo pode gerar algo em torno de US$ 7 bilhões adicionais em exportações, com impacto crescente ao longo do tempo. Ainda assim, a iniciativa não produz efeitos imediatos.
Trata-se de uma transformação estrutural, que se materializa lentamente e exige adaptação regulatória, produtiva e logística.
Como o acordo deve afetar o Brasil?
Dentro do Brasil, a região Sudeste é de longe a que mais exporta, seguida de Sul e Centro-Oeste.


O que o mercado tenta antecipar, no fim das contas, é quem seriam os grandes vencedores e perdedores desse acordo.
Do ponto de vista macroeconômico, essa resposta não é trivial. É difícil afirmar, hoje, se, no balanço final, o acordo será mais favorável ao Mercosul ou à União Europeia. Esse tipo de avaliação só se revela com o tempo, à medida que os fluxos comerciais se ajustam, as cadeias produtivas se reorganizam e as salvaguardas passam do papel para a prática.
Quando o olhar se volta para setores específicos, o diagnóstico fica um pouco mais claro.
Segmentos como montadoras e autopeças tendem a enfrentar maior pressão competitiva, enquanto a agropecuária aparece como principal beneficiária. Ainda assim, os ganhos não devem ser explosivos.
As salvaguardas embutidas no acordo funcionam como um freio estrutural, limitando mudanças abruptas e tornando improvável uma virada de patamar no nível de comércio no curto prazo.
Integração internacional com cautela
Como liberal, continuo acreditando que o comércio internacional é, essencialmente, um jogo de soma positiva. A alocação mais eficiente de recursos eleva a produtividade e, no agregado, aumenta o PIB global.
Por isso, após um ano marcado pelo avanço do protecionismo e do isolamento comercial, especialmente nos Estados Unidos, a simples retomada de um acordo de livre comércio já carrega um valor simbólico relevante.
A iniciativa, portanto, é positiva. Não revoluciona o jogo, nem redefine a ordem econômica de imediato. Mas sinaliza uma direção.
E, em um mundo cada vez mais fechado em si mesmo, voltar a falar em integração já é, por si só, um passo que merece atenção — ainda que seus efeitos concretos só apareçam quando todos os participantes aceitarem que o ganho, de fato, é mútuo.

