Adam Back é o criador do Bitcoin? Veja evidências
O New York Times publicou investigação apontando o criptógrafo britânico Adam Back como Satoshi Nakamoto. Entenda as evidências e o que muda para o investidor
O New York Times publicou nesta quarta-feira, 8, uma reportagem apontando Adam Back, de 55 anos, criptógrafo britânico e CEO da Blockstream, como o possível criador do Bitcoin.
A investigação foi conduzida ao longo de mais de um ano pelo repórter Joe Rodota e combinou análise linguística computacional, rastreamento de arquivos históricos das listas de e-mail dos Cypherpunks e um confronto presencial com Back em um hotel em El Salvador.
O BTC é negociado na casa dos US$ 71.800 no momento da publicação. Back negou ser Satoshi Nakamoto mais de seis vezes durante o encontro e reafirmou a negativa no X (antigo Twitter) após a publicação.
Por que Adam Back foi apontado como Satoshi Nakamoto?
O ponto central da tese do jornal é um conjunto de postagens que Back fez entre 1997 e 1999 nas listas de discussão dos Cypherpunks, grupo de ativistas da criptografia que debatia moeda digital nos anos 1990.
Nessas mensagens, Back teria proposto praticamente todos os elementos que viriam a compor o Bitcoin: moeda eletrônica desconectada do sistema bancário, distribuída por uma rede de computadores independentes, com emissão controlada por resolução de problemas computacionais.
O NYT levantou os arquivos das listas Cypherpunks, Cryptography e Hashcash entre 1992 e outubro de 2008, reunindo mais de 34 mil usuários. Após filtrar contas com menos de dez postagens e excluir quem nunca discutiu moeda digital, restaram 620 candidatos.
A equipe aplicou filtros baseados em peculiaridades linguísticas de Satoshi: uso de dois espaços entre frases, grafia britânica, confusão entre “it’s” e “its”, hifenização irregular de palavras compostas. Ao final de todos os filtros, restou um único nome: Adam Back.
Além disso, Back é o inventor do Hashcash, sistema de prova de trabalho (proof-of-work) citado diretamente por Satoshi no white paper do Bitcoin.
Um levantamento separado de erros de hifenização mostrou que Back compartilha 67 dos 325 erros identificados nos textos de Satoshi. O segundo colocado tinha apenas 38.
O comportamento de Adam Back levanta suspeitas?
O NYT aponta uma coincidência comportamental relevante. Back, que por mais de uma década foi um dos participantes mais ativos nos debates sobre moeda eletrônica, deixou de comentar o assunto exatamente quando o Bitcoin foi lançado, em 2008.
Voltou a se manifestar publicamente sobre o tema em junho de 2011, seis semanas após Satoshi fazer sua última aparição conhecida.
Em 2015, durante uma disputa sobre o tamanho dos blocos da rede, um e-mail atribuído a Satoshi defendeu posição idêntica à que Back sustentava publicamente na mesma semana, com vocabulário semelhante.
O NYT diz ter captado até um possível deslize na gravação do encontro em El Salvador, quando Back, ao ouvir uma citação de Satoshi, teria iniciado uma frase em primeira pessoa antes de se corrigir.
Cabe lembrar que toda a evidência reunida é circunstancial. A análise estilométrica formal, conduzida por um linguista computacional da École Nationale des Chartes, apontou Back como o candidato com escrita mais próxima à de Satoshi, mas o resultado foi considerado inconclusivo pelo próprio especialista.
Adam Back é mesmo o criador do Bitcoin?
Apesar das evidências, não existe prova definitiva. A única prova definitiva seria Satoshi mover parte de seus Bitcoins usando uma chave privada associada aos primeiros blocos minerados, algo que nunca aconteceu.
Além disso, o próprio Adam Back negou diversas vezes ser o criador.
O que muda para o investidor?
Não é a primeira, segunda, nem a última vez que um membro do início do Bitcoin é “acusado” de ser o Satoshi Nakamoto. A verdade é que todos que investigam apresentam “provas contundentes” de que determinada pessoa é, de fato, o criador da criptomoeda. Na minha opinião, se é ou se não é, pouco importa.
Acho, inclusive, uma grande irresponsabilidade dos grandes veículos de mídia apontar publicamente uma pessoa como Satoshi Nakamoto. As carteiras atribuídas ao criador do Bitcoin têm cerca de 1,1 milhão de bitcoins, o que, no preço atual, seria algo próximo a US$ 73 bilhões, segundo a casa de análise Arkham. Coloca-se um potencial alvo gigante nas costas do suposto verdadeiro Satoshi.
Seja lá quem for o responsável pela criação do Bitcoin, ele conseguiu seu objetivo: criar uma moeda descentralizada que independe de uma figura central.
No dia em que for revelada, indubitavelmente, a verdadeira identidade, o preço pode cair no curto prazo. Mas, a longo prazo, nada muda.
O que realmente importa no Bitcoin
Os fundamentos técnicos e filosóficos do Bitcoin são imutáveis, independentemente de quem é o verdadeiro Satoshi. O ativo segue sendo uma moeda digital 100% descentralizada, com oferta limitada a 21 milhões de unidades, inflação decrescente e validação independente de qualquer Estado ou Banco Central.
Para quem investe em cripto, a orientação continua a mesma: foque nos fundamentos, mantenha uma alocação adequada ao seu perfil de risco e não deixe que manchetes sensacionalistas ditem suas decisões. O mercado já “matou” o Bitcoin mais de 450 vezes e, até agora, ele segue de pé.
Vale a pena se preocupar com isso?
A identidade de Satoshi Nakamoto é um mistério fascinante, mas irrelevante para a tese de investimento. O que sustenta o Bitcoin são seus fundamentos, não o nome de quem o criou.

